Berlinale 70: uma edição corajosa em meio a intempéries

Days (Tsai Ming-Liang, 2020)

A 70ª Berlinale iniciou em meio a intempéries de vários níveis, do temor sobre o coronavírus (o júri do prêmio Teddy, por exemplo, teve ausente um de seus jurados, chinês, ficando desfalcado) a mudanças de infraestrutura causadas por revisões orçamentárias e reformas na região da Potsdamer Platz, base do festival. Na quarta antes da abertura, um atentado da extrema direita em Hanau, próxima a Frankfurt, retomou fantasmas. Semanas antes, a revelação de que Alfred Bauer, importante ex-diretor já falecido do festival, fora ligado ao nazismo, pôs o festival em controverso retrospecto. O prêmio que há 33 anos levava seu nome foi cancelado pelos novos diretores, Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian.

Em conversa com críticos alemães, para mim ficou nítida certa desconfiança, por parte da imprensa local, diante dos rumos que os novos diretores viriam dar ao festival. Rissenbeek, holandesa, vinha há alguns anos à frente da agência alemã German Films, assumindo a direção executiva da Berlinale. Chatrian, italiano, há seis dirigia o Festival de Locarno, convidado para a direção artística em Berlim. A lista de programação divulgada já deixava claro que certo capital simbólico de mercado por aqui, neste festival de maior magnitude que o suíço, somava-se a certo prestígio cultivado por Chatrian junto a alguns setores artísticos. Após os dez dias de Berlinale, ficou evidente que o perfil de Locarno, que vinha se firmando como festival atento, arriscado e arrojado em termos curatoriais, ganhou readequação na infraestrutura maior de Berlim – ainda que esta mesma tenha sido reduzida, de cerca de 400 para 350 filmes. Considerada por alguns uma Berlinale em tom menor, em geral o festival foi aclamado pela crítica internacional por uma retomada de relevância artística, uma amostragem de personalidade curatorial e a busca por um filão próprio que seja capaz de diferenciar Berlim de outros grandes festivais, como Cannes, Sundance e Veneza.

Isto está evidente em certo balanço, na competição oficial, que fez desta edição a mais instigante desde que acompanho as listas da Berlinale: balanço entre certos grandes realizadores de propostas particularmente inventivas, limítrofes, entre cinema de mercado e cinemas pequenos (Tsai Ming-Liang, Hong Sang-soo); apostas em nomes não tão capitalizados de pesquisa própria fresca, saborosa, por vezes surpreendente (como Kelly Reichardt e a parceria entre Caetano Gotardo e Marco Dutra); e um tom político mais direto que aparece em formas mais convencionais de comentário (Gustave Kervern e Benoît Delépine ou o Urso de Ouro Mohammad Rasoulof), traço das últimas seleções que ganhou continuidade. Em linhas gerais, uma seleção de corpo, em que os piores filmes parecem compor mais um desejo de diversidade e cor do que indicam falta de fôlego. É muito saudável que os públicos possam conhecer formas tão diferentes de se fazer cinema numa única seção, que é de todo modo prestigiosa junto às multidões e atrai milhares de pessoas aos palácios do festival.

Para reiterar seu desejo por arrojo e alocar mais filmes envisionados por seu projeto de curadoria, Chatrian criou a seção Encounters, em que 15 filmes em geral um pouco mais idiossincráticos se reuniram como numa espécie de segunda competição para cinemas cujos traços artísticos são imponentes sem que deixem de investir numa experiência forte de sala de cinema. Sendo assim, a Forum, em sua 50ª edição, ficou marcada por um ar independente ainda mais arejado, sendo que ao fim de 10 dias fica claro que aqui a busca por cinemas diferentes ganha agora um tom mais distinto de liberdade, de certo descompromisso com o espetáculo das vogas. Do contrário, há uma crença de que o fazer artístico não é dirigido por laboratórios e mercados, mas por projetos de pensamento essencialmente particulares.

É uma ideia francamente afirmada com a retomada da programação da primeira Forum (cujo nome completo é Forum Internacional do Novo Cinema), em 1971, como comemoração do cinquentenário. Era uma seleção particularmente incrível, de forte inflexão política, com filmes de Chris Marker a Nagisa Oshima, de Med Hondo a Theo Angelopoulus, em contexto de Guerra Fria cujos temas e formas ressoam nas guerras ideológicas atuais, e daí sua revisão ser tão oportuna. Sob a direção também renovada de Cristina Nord, eis a Forum fazendo um grande trabalho de retomada e reafirmação de princípios, dando à Berlinale um ar de constelação. As tantas seções do festival (Panorama, Generation, Berlinale Shorts, Forum Expanded), quase todas passando por reformulações, parecem estar dirigindo a atenção a uma sensibilidade internacional progressista que se traduz não só nas bandeiras, mas também em possíveis formas para as novas batalhas históricas, num generoso retrato dos cinemas do presente. Belo festival.

‘Todos os mortos’: certos movimentos no cinema brasileiro

Exibido na competição oficial, Todos os mortos de Caetano Gotardo e Marco Dutra foi uma seleção dissonante numa bela competição oficial, muito mais instigante que nos anos anteriores, cheia de filmes igualmente idiossincráticos, universos fascinantes e distintos de cinema (pensar, por exemplo, em Days, de Tsai Ming-Liang, Siberia, de Abel Ferrara ou First Cow, de Kelly Reichardt). Em particular, o brasileiro (com co-produção francesa) me parece indicar, com frescor, certos horizontes para o estado da discussão (inclusive formal) em torno da anti-colonialidade nos debates locais.

Se se reivindica um movimento que deixa de ser meramente futurista, como na voga recente, e que ultrapassa o presenteísmo que veio marcando tanto o retrato geral dos nossos filmes em anos anteriores, para então escavar memórias coletivas (note-se a lida com as diásporas africanas ou as vozes queer ou indígenas), Todos os mortos se soma a filmes recentes como Joaquim (2017), de Marcelo Gomes, ou O nó do diabo (2017), de Ramon Porto Mota, Jhésus Tribuzi, Gabriel Martins, Ian Abé, com que se enfrenta a imaginação de época da história geral básica brasileira. Aqui, temos um filme que em particular acessa dados da história oficial, sem que busque neles o mero documento, mas material para reconfiguração artística dos próprios dados: quer dizer, nossas datas históricas são não só o palco para dramaturgias novas como põem em novo diagrama relações simbólicas de classe, raça e gênero a partir de certos interesses propriamente dramáticos e estilísticos, e que têm feito dos cinemas de Caetano Gotardo e de Marco Dutra tão frequentemente instigantes.

A recepção mista em Berlim me parece dever em parte à não familiaridade do olhar estrangeiro com certas intuições que movimentam o filme a partir da domesticidade de costumes e valores. É, assim, muito lindo ter visto esse filme ser exibido num palácio e a multidão de espectadores a ter que se explicar para ele (não é isso o que fazemos diante de um filme?). A ver suas reverberações quando chegar ao Brasil.

Filmar dissidências: entre vida e filme

Las mil y una (Clarisa Navas, 2020)

Na abertura da Panorama, Michael Stütz, novo diretor da seção, reclama pela rebelião. A Panorama é a do discurso direto, a que mais acredita na representação, e na representatividade, na chave da comunicação ampla como maior vocação do cinema. Há uma lista de problemas a ser tocada e de alguma maneira reparada pela imaginação do cinema (isso parece ser uma crença). Em especial, lutas geopolíticas e micropolíticas: trata-se, em geral, da união de bichas e bruxas (ou seja, todas as vidas que escapam ao status quo), em histórias de desobediência contadas com a transparência da tradição clássica em suas versões contemporâneas.

O filme da abertura, Las mil y una, assim se anunciou: filme de diretora argentina – Clarisa Navas – balanceando a hegemonia G na indústria da cultura LGBT, bem como indicando o projeto deste festival em destacar outro ponto de vista que não o do hemisfério norte. Se há algo de maior interesse no filme de Clarisa – e no que significa a escolha deste filme para abrir a mostra – é certa reconexão temporal entre lacração e realismo, digo: se nos últimos tempos vimos muitos cinemas dissidentes apostando no artifício, no bafo, no extemporâneo da performance como alternativa de vida (ou de morte de um mundo para surgimento de outro, como se tem dito no lugar comum das nossas melhores esquerdas), aqui há uma espécie de retorno ao pacto naturalista. Com isso, não significa que se tenha abandonado a reivindicação pelo queer como alternativa à política LGBT (que teria mais a ver com acesso a instituições que com a performatividade de visões outras). Nem que, neste sentido, deixamos a fantasia criadora do palco para retornar à melancolia mitigadora do quarto. Me parece é que talvez a invenção do corpo queer contemporâneo demonstra assimilação pelo olhar comum, já podendo ter educado os corpos do presente como o entendemos, e assim retornar à superfície onde se dá a tessitura do tempo cotidiano.

Do encontro entre fetiche do plano-sequência, retrato das vidas e busca por corpos extraordinários, talvez a assunção de que a educação queer despeja o artifício na sabedoria do tempo; e a dissidência, motor deleuziano, é reconfigurada em código baziniano. Erika Lust encontrou Lucrecia Martel. Observe com calma e verás cada detalhe dos gestos os quais nosso olhar, tendo olhado o bastante, já pôde assimilar, analisar, reexibir para um filme. Não estou falando simplesmente de filmar o cotidiano, mas talvez o contrário, um projeto de cotidianizar o filme: há uma difícil busca racional pelo propriamente pulsional no modo como o filme de Clarisa entende ser capaz de sequestrar gestos de pessoas (no que será um filme portanto em muito coreográfico). Las mil y una termina por localizar e indicar uma disputa que parece central à Panorama e à Berlinale: entre aquilo que preserva o rasgo das liberdades e aquilo que representa, e portanto domestica, vidas dissidentes (para fazer filme).

O sol queima sobre nós: parte do problema


Memory Also Die (Didi Cheeka, 2020)

Um grande sol queimando em looping está projetado no alto, sobre a entrada da área de exposição do Silent Green Kulturquartier, um antigo crematório ao lado de um cemitério no bairro de Wedding, hoje um centro cultural ocupado anualmente pela Berlinale. O filme é The sun, de Kika Thorne (2020), parte da exposição Part of the Problem (ou Parte do Problema), da Forum Expanded, seção do festival que situa o cinema na fronteira com as artes visuais. A sensação de um grande problema geral em curso, queimando sobre as cabeças e que a todos diria respeito, veio dando tom à programação e aos discursos nesta 70ª Berlinale, que busca renovação com a mudança de chefia na maior parte das seções, o que tem sido reiterado artística e diplomaticamente.

Abertura da exposição, quarta-feira 20, um dia antes da sessão de abertura: Marriete Rissenbeek e Carlo Chatrian, novos diretores do festival, incorporam à sua fala o desagravo ao ponto de vista europeu; notam, seria preciso reconhecer as diferenças, as reformas identitárias, os processos coloniais. Uma das coisas mais bonitas nessa lista de obras, que valoriza das inclinações políticas da performance contemporânea às do cinema-ensaio, em longos corredores onde um dia eram depositadas urnas com corpos cremados, é o filme Memory Also Die (ou “A memória também morre”, 2020) de Didi Cheeka, uma breve visita a arquivos que traçam a produção colonial de esquecimento na Nigéria. “Infelizmente, ainda temos mais França que Nigéria aqui, mas um dia isso vai mudar”, diz o diretor do festival.

Diretor da Berlinale preocupado com rumos do cinema no Brasil (DW)

Novo diretor do Festival Internacional de Berlim, Carlo Chatrian falou à DW sobre a presença brasileira no evento e a situação do audiovisual no país. “Estamos muito preocupados”, afirmou o italiano, que convidou o cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho para integrar o júri da Berlinale 2020: “Achamos importante mandar um sinal para a indústria internacional de que nos importamos com o cinema brasileiro”.

O Brasil alcança neste ano seu maior número de filmes escolhidos para uma edição da Berlinale. Serão 19 obras (produções e coproduções) participando das diferentes mostras que compõem a programação e o longa-metragem Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, concorre ao Urso de Ouro. 

“Temos uma grande diversidade. É a melhor resposta para quem diz que o cinema brasileiro não está vivo, e não deve ser financiado”, avalia o diretor do festival.

Confira a entrevista completa de Carlo Chatrian para a DW.

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Luís Fernando Moura compartilha suas expectativas para o Festival Internacional de Cinema de Berlim

O curador e pesquisador Luís Fernando Moura é o autor dos textos que serão publicados no site da Conexão Berlinale nos próximos dias. Antes de embarcar para a terceira experiência dele no Festival Internacional de Cinema de Berlim, o pernambucano falou sobre as expectativas em relação ao evento.

Luís Fernando Moura também comentou sobre as viagens anteriores, também realizadas por uma parceria entre o Centro Cultural Brasil-Alemanha (CCBA) e o Festival Internacional Janela de Cinema do Recife, do qual ele é coordenador de programação. Características dos dois eventos fazem parte da entrevista a seguir.

EUGÊNIA BEZERRA – Poderia falar sobre sua relação com o Festival de Berlim e relembrar um pouco da experiência anterior de parceria entre o Janela com o CCBA?

LUÍS FERNANDO MOURA – É a minha terceira vez no festival, após as edições de 2016 e 2017, sempre em parceria entre o Janela e o CCBA. Dessas viagens vieram descobertas de filmes e contatos com pessoas que vêm se refletindo no Janela desde então, às vezes por meio de pontes cujos efeitos são diretos.

Em 2016, conheci 1 Berlin-Harlem, de Lothar Lambert e Wolfram Zobus, no Kino International, uma sala de cinema impressionante na Berlim Oriental. É um filme do underground alemão de 1974 que cria uma narrativa da liberdade no ambiente da Guerra Fria, e que encontrou bem a noção de desobediência que inspirou aquela edição do Janela, daí que terminamos por exibi-lo na mesma cópia em 35mm no Cine São Luiz, em parceria com a Cinemateca Alemã, certamente uma exibição inédita deste realizador anônimo no Brasil, mas de reconhecimento longevo em meio a certa cinefilia alemã interessada nas bordas e nas alternativas da histórica artística. Foi um intercâmbio incomum, eu diria.

Em 2017, Let the summer never come again, algo como um épico errante georgiano-alemão de Alexandre Koberidze, residente em Berlim, tinha estreia mundial na Semana da Crítica de Berlim, evento paralelo ao festival, e depois de ganhar o prêmio do júri no FIDMarseille teve estreia brasileira na competição de longas do Janela, onde foi recebido como descoberta feliz de um filme de amor radical e do trabalho deste diretor jovem. Koberidze veio ao Janela com apoio da German Films, agência parceira com que travamos parcerias nas visitas à Berlinale, e que apoiou, no ano anterior, a viagem dos brasileiros Melissa Dullius e Gustavo Jahn para exibir seu Muito romântico, uma ficção biográfica com matizes de ensaio e cinefilia experimental em torno da mudança dos dois para Berlim, onde moram e fazem filmes em 16mm há mais de dez anos, no âmbito da produtora Distruktur.

Foi também nesta edição que fizemos parceria com os integrantes do Rabbit Hole, coletivo europeu que veio ao Janela exibir dois programas de filmes na interseção entre o cinema, as artes visuais, a cultura da rave e a experiência queer.

A Berlinale é um mundo imenso e há ali toda forma de ideia circulando. É possível entrar em contato com inúmeras visões de cinema, linguagem e sociedade, que de alguma maneira deslocam inspirações, contrastes ou ressonâncias para o processo curatorial do Janela, e isto tem como fonte ou meio o festival mas também a própria capital alemã, com os pequenos circuitos de conversa e troca que se formam no interior e no entorno das programações oficiais.

Vale notar que o Janela tem com alguma frequência feito estreias mundiais que posteriormente ganham primeira exibição internacional na Berlinale, como é o caso de Estás vendo coisas (2016) e Terremoto santo (2017), ambos de Barbara Wagner e Benjamin de Burca, e de Jogos dirigidos (2019), de Jonathas de Andrade, que vai ser exibido este ano na mostra Forum Expanded.

EUGÊNIA BEZERRA – Que características você destacaria no Festival de Berlim?

LUÍS FERNANDO MOURA – Bom, junte-se perfis do evento e da cidade e talvez ele seja um festival com vocação para, digamos com a figura da hipérbole, abrigar virtualmente todas as características. É um festival de enorme apelo a um muito numeroso público, com dezenas de salas e centenas de filmes, às vezes com 4, 5, 6 exibições públicas cada um, fora as sessões de imprensa.

A paisagem é a de um grande centro expandido tomado por um festival, que é anunciado nos outdoors por todo lado, gera filas em pontos de venda, ocupa multiplexes e incríveis salas de rua. Um grande edifício na mesma região sedia o European Film Market, considerado o maior encontro do mercado do audiovisual no continente e que funciona como uma grande feira de negócios internacional. E há também o programa Berlinale Talents, que oferece diversos programas de formação e é talvez o mais reconhecido do mundo – tem aliás edições também anuais, mais compactas e direcionadas, no Rio e em Buenos Aires, por exemplo. Há, neste sentido, do oficial ao extra-oficial, muitos grandes festivais no interior de um mesmo enorme festival de múltiplos horizontes, que abrange muitos mercados e as mais diversas formas de atuação nesses mercados: desde a competição oficial, que inclui o pacote tapete vermelho e o Palácio Marlene Dietrich, exibindo filmes que esperam distribuição expressiva no chamado mercado alternativo internacional, até a Forum Expanded, mostra dedicada ao cinema experimental que veio nos últimos anos ocupando principalmente os cinemas do Arsenal, ligados à Cinemateca, e a Akademie der Künste, ótimas salas de cinema com ar de cineclube — e há ainda as retrospectivas, a competição de curtas, a Forum, a Panorama, a Generation e a nova seção Encounters.

São cerca de 400 filmes por ano. A eles se soma ainda a Semana da Crítica, um evento jovem, concebido pela crítica independente alemã, que tem se destacado a partir de uma postura antagônica (em sentido generoso, mas firme) ao modelo de grande festival panorâmico, e que faz ótimas sessões de uma dezena de filmes contemporâneos com debates na sequência, sob curadoria criativa, e que tem de alguma forma se integrado transversalmente ao festival (farão a estreia alemã de Sete anos em maio, filme de Affonso Uchôa eleito melhor curta brasileiro no último Janela, onde recebeu também o prêmio de aquisição do Canal Brasil) – em suma, há outros diversos pequenos eventos que se acumulam pela cidade, como a Boddinale, uma Berlinale micro, local e às vezes algo anarquista. Me parece que há aí festivais, subfestivais e contrafestivais num diálogo urbano de dimensões no mínimo plurais, e que movem também as comunidades berlinenses, seja pela adesão ou pelo tensionamento.

EUGÊNIA BEZERRA – Quais são as suas expectativas enquanto curador e pesquisador para esta edição do festival?

LUÍS FERNANDO MOURA – Estou bem curioso com as mudanças na curadoria do festival. Este é o primeiro ano de direção artística de Carlo Chatrian, egresso do Festival de Locarno, e de certa forma ele parece ter trazido algum sabor de Locarno para se juntar ao de Berlim. Note-se, por exemplo, a presença do filme de Marco Dutra e Caetano Gotardo na competição oficial. Há três anos, Marco Dutra exibiu (com Juliana Rojas) na competição do festival suíço. Aliás, é uma seleção atraente que me parece se posicionar de maneira consciente entre, digamos, hegemonia e contra-hegemonia.

Há filmes novos, por exemplo, de Tsai Ming-Liang e de (como sempre) Hong Sangsoo, mas também de Abel Ferrara e de Kelly Reichardt, Rithy Panh ou Christian Petzold. Me parece que cada um desses nomes acena para uma nota de cinefilia particular, sendo que temos ao fim um conjunto de realizadoras e realizadores instigante, mais arrojado que nos últimos anos.

A Panorama também mudou de direção, agora sob comando de Michael Stütz. Esta seção tem como perfil um espectro mais amplo do mercado de cinema, a seção mais volumosa e em geral bastante politizada no sentido mais imediato da palavra, muito diversa e que tende a buscar um contato mais direto com os públicos. Fico curioso porque Michael, ainda que seja um dos programadores da seção há muitos anos, é ex-diretor do Xpanded, ótimo festival de cinema queer berlinense, e é também um dos principais nomes à frente do Teddy, eixo LGBT da Berlinale. Tenho a sensação de que, estando à frente da Panorama, empresta a ela uma energia interessante.

Particularmente me atrai a nova seção competitiva Encounters, que traz 15 longas na chave artística da invenção e vai estrear títulos como os novos de Matías Piñero e Camilo Restrepo, também veteranos de Locarno (posso dizer que o Janela introduziu bem no Brasil o trabalho de Restrepo em curta-metragem). Essa edição será também um teste de novas apostas para celebrar os 70 anos da Berlinale. Ainda mais curiosidades: a mostra expositiva dedicada à cineasta guarani Patrícia Ferreira no interior da Forum Expanded, curada por Anna Azevedo. A programação de 50 anos da mostra Forum, que além dos filmes de 2020 vai reexibir a programação de 1971.

EUGÊNIA BEZERRAImagino que seja difícil escolher o que assistir com tantas opções… Existem temas ou eixos que lhe interessam mais nesta edição?

LUÍS FERNANDO MOURA – O Janela, e meu trabalho de pesquisa em geral, não é exatamente direcionado à pesquisa de um mercado específico (dito de outro modo, me interessam e interessam ao Janela tamanhos diferentes de filme, maneiras diversas de perceber e acessar o que podemos chamar, de maneira mais ampla, artes fílmicas), então como habitual vou distribuir a atenção entre diferentes seções. Tenho costumado acompanhar mais de perto a seção Forum, que trata do cinema independente com um interesse mais detido na pesquisa de formas, mas a nova seção Encounters se apresenta como outra constelação neste sentido.

Em geral me interessa até menos a competição oficial, onde os riscos são menores, e aliás a probabilidade dos filmes mais interessantes entrarem em cartaz no Brasil antes das datas do Janela é considerável, mas este ano há alguns bons filmes de interesse ali. Com isso quero dizer que também na competição oficial me parece que se investiu na exploração das relações entre crítica e poética, entre integração e dissidência, entre crise e clínica, e que fazem do cinema um bom território de questões e energias – ao menos se considerarmos os universos programados a partir de obras e circuitos pregressos. Me interessa perceber como o festival organiza essas relações dissensuais e como, em especial, os filmes as abordam e as provocam.

Claro, me interessam filmes, filmografias, diretoras e diretores específicos que trabalham na limitrofia, sejam seus programas artísticos mais ou menos convencionais, mais ou menos midiatizados, mais ou menos reconhecidos.

EUGÊNIA BEZERRA – Poderia comentar sobre como a presença em um festival internacional contribui para o trabalho de um curador? Imagino que, junto com a oportunidade de ver filmes de diversas partes do mundo, a possibilidade de conversar com artistas, curadores, críticos e o público deve ser algo enriquecedor…

LUÍS FERNANDO MOURA – Sim, é sempre uma maneira de pôr o olhar em movimento, de criar afinidades, de renovar e colocar em crise, no bom sentido, as percepções sobre as diferentes escalas de circulação e sobre os universos de criação.

EUGÊNIA BEZERRA – Falando especificamente sobre a sua experiência com o Janela, consegue identificar algum ponto em que a ida a Berlim teria contribuído para o seu trabalho, para seu olhar sobre o festival recifense ? 

LUÍS FERNANDO MOURA – A Berlinale é um festival que, obviamente, opera numa escala muito diferente da do Janela. Dito isso, os tantos festivais no interior da Berlinale, em particular as tantas seções, que são cada uma um festival, cada uma concebida sob certos critérios, buscas e desejos particulares, expõem também princípios próprios, inclinações políticas e um raciocínio próprios, uma cerimônia própria diante das ideias de organizar, exibir e apresentar filmes.

Para além de um ou outro filme, estas impressões em torno do ofício de curadoria são inevitavelmente apreendidas e levadas para o nosso exercício particular no Janela, um modelo de pôr filmes juntos que sinto que é muito nosso no festival, e que tem a ver com trabalhar numa escala pequena mas que seja capaz de articular tanto uma riqueza de modos e caminhos quanto propostas de desvio e pergunta, e que têm no horizonte tanto um diapasão global, atento aos intercâmbios, quanto à percepção do Recife, do público recifense, e do circuito e dos debates brasileiros, que nos movem localmente e como comunidade no interior de um estado e de um país.

Os festivais são pertinentes, no sentido de que eles só fazem sentido em certo espaço-tempo que é particular a eles, cada um deles, e nessa relação entre o próprio e o outro está a capacidade de uma curadoria mover ideias e experiências, que se espraiam pelas coletividades.

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CCBA e Janela de Cinema são parceiros na Conexão Berlinale 2020

O 70º Festival Internacional de Cinema de Berlim está prestes a começar e, mais uma vez, o Centro Cultural Brasil-Alemanha (CCBA) promove a Conexão Berlinale, iniciativa focada no exercício da crítica cinematográfica. A cada ano, em parceria com veículos de comunicação e festivais, o CCBA tem apoiado a ida de jornalistas e curadores ao festival conhecido como Berlinale. Em 2020, o pesquisador e curador Luís Fernando Moura vai acompanhar a programação que se espalha por diferentes pontos da capital alemã de 20 de fevereiro até 1º de Março.

Coordenador de Programação do Festival Janela Internacional de Cinema do Recife, Luís Fernando também participou da Conexão Berlinale em 2016 e 2017. “A Berlinale é um mundo imenso e há ali toda forma de ideia circulando. É possível entrar em contato com inúmeras visões de cinema, linguagem e sociedade, que de alguma maneira deslocam inspirações, contrastes ou ressonâncias para o processo curatorial do Janela, e isto tem como fonte ou meio o festival mas também a própria capital alemã, com os pequenos circuitos de conversa e troca que se formam no interior e no entorno das programações oficiais”, avalia Luís Fernando Moura.

“Estou bem curioso com as mudanças na curadoria do festival. Este é o primeiro ano de direção artística de Carlo Chatrian, egresso do Festival de Locarno, e de certa forma ele parece ter trazido algum sabor de Locarno para se juntar ao de Berlim. Note-se, por exemplo, a presença do filme de Marco Dutra e Caetano Gotardo na competição oficial. Há três anos, Marco Dutra exibiu (com Juliana Rojas) na competição do festival suíço. Aliás, é uma seleção atraente que me parece se posicionar de maneira consciente entre, digamos, hegemonia e contra-hegemonia”, observa o curador e pesquisador (confira a entrevista completa de Luís Fernando Moura para o CCBA).

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Passado nazista de fundador leva Berlinale a cancelar prêmio (via DW)

A organização do Festival Internacional de Cinema de Berlim, Berlinale, decidiu suspender o prêmio que leva o nome de um dos seus fundadores, Alfred Bauer, depois que o jornal Die Zeite publicou um material sobre o envolvimento do mesmo com o nazismo.

Nos estudos divulgados, é apontado que Alfred Bauer tinha um posto de alto escalão numa repartição cinematográfica estabelecida pelo chefe de propaganda do regime nazista, Joseph Goebbels, em 1942.

Alfred Bauer dirigiu a Berlinale de 1951 a 1976. O prêmio agora suspenso pelos organizadores foi lançado como uma homenagem após a morte dele em 1986. A premiação fazia parte do Urso de Prata e era dedicada a “filmes de longa-metragem que abram novas perspectivas no campo da arte cinematográfica”.

Confira a matéria completa sobre Alfred Bauer na DW.

Alfred Bauer em 1971, ao lado da atriz americana Shirley MacLaine
(Reprodução DW)

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Filme brasileiro Todos os Mortos concorre ao principal prêmio da Berlinale 2020

O longa-metragem Todos os Mortos, de Marco Dutra e Caetano Gotardo, conta histórias de mulheres que viviam na São Paulo de 1899 e 1900. Esse drama é uma das 19 produções brasileiras que participam da Berlinale 2020, exibidas nas diferentes mostras que compõem o evento, de 20 de fevereiro até 1º de Março. A Assinatura da Lei Áurea (1888) e a Proclamação da República Brasileira (1889) eram acontecimentos recentes no período retratado no filme Todos os Mortos.

“Escolhemos aqueles dois anos porque neles identificamos, mesmo com toda a transformação da época, estruturas que infelizmente permanecem até hoje. Falar sobre a herança da escravidão permite abordar temas como desigualdade social, o trabalho, a presença do negro na cultura e na sociedade”, afirmou Marco Dutra para o crítico Luiz Carlos Merten, do jornal O Estado de São Paulo. 

Na sinopse do filme, os cineastas comentam que “os fantasmas do passado ainda caminhavam entre os vivos”. “As mulheres da família Soares, antigas proprietárias de terra, tentam se agarrar ao que resta de seus privilégios. Para Iná Nascimento, que viveu muito tempo escravizada, a luta para reunir seus entes queridos em um mundo hostil a conduz a um questionamento de suas próprias vontades. Entre o passado conturbado do Brasil e seu presente fraturado, essas mulheres tentam construir um futuro próprio”, dizem eles no texto sobre a obra. 

“Estamos muito satisfeitos com o trabalho, e curiosos para ver como será recebido, no País e fora, nesse momento em que o olhar internacional está tão voltado para o Brasil”, completa Marco Dutra na mesma entrevista ao Estadão (confira o texto na íntegra). 

O cinema brasileiro tem mesmo se destacado no Festival de Cinema de Berlim. Há alguns anos, outro drama situado relacionado a um momento marcante da história do Brasil, Joaquim, do pernambucano Marcelo Gomes, sobre Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), também concorreu ao Urso de Ouro. Mas é preciso lembrar que este olhar para a história presente nos filmes em questão tem sido acompanhado de reflexões contemporâneas sobre os rumos do País. 

SAIBA MAIS

 Aproveitando as notícias sobre a Berlinale 2020, a jornalista Juliana Domingos de Lima escreveu sobre a importância da internacionalização para o cinema nacional em texto publicado no portal Nexo. “Em edições recentes, o país tem ficado atrás, em número absoluto de títulos selecionados, apenas da Alemanha, anfitriã do evento (em que há mostras específicas para o cinema alemão), e de França e Estados Unidos, conhecidos por suas indústrias cinematográficas pujantes”, contabiliza (confira o texto na íntegra).

Para informações sobre cursos de alemão, certificados oficiais, intercâmbio e projetos nos quais o CCBA está envolvido, visite o nosso site ou entre em contato pelo (81) 3421-2173.


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