por Lorenna Rocha

Em sua 23ª edição, o Afrika Film Festival Köln destaca-se ao apresentar um recorte diversificado da filmografia africana e afro-diaspórica no contexto contemporâneo. Com programação de mostras competitivas de curtas e longas-metragens, o festival também promove sessões de filmes históricos restaurados, painéis relacionados aos títulos em exibição, workshops, apresentações musicais e peças teatrais.
Filmforum NRW (no Museum Ludwig) é a principal sala de cinema que abriga o evento, estando localizado no centro de Colônia. As atividades também se espalham por outros espaços da cidade: Rex Kino Köln (Rex am Ring), OFF Broadway, Lichtspiele Kalk, Kunsthochschule für Medien Köln e COMEDIA Theater Köln.
Fotos: Lorenna Rocha
As sessões de cinema são acompanhadas por Queue & Answer (Q&A) com diretores e produtores. Os debates contam com a mediação da equipe de curadoria, possibilitando que o público reverbere, logo na sequência da experiência coletiva, impressões e perguntas em relação ao que acabou de ser visto.
No hall do Filmforum NRW, há um confortável espaço de convivência, com lanchonetes que destacam a culinária de países africanos, loja de produtos exclusivos do festival e venda de livros. É nesse ambiente que há um trânsito intenso de público, realizadores e colaboradores que estão ativamente envolvidos na produção local. Nesses primeiros dias, a impressão que fica é que o festival possui um público fiel e participativo.
O júri é formado por Ibrahim Snoopy (Sudão), Fatima Remli (Alemanha), Khalid Shamis (África do Sul), Safiya Yan (Alemanha), Carlos Carima (Alemanha) e Luzolo Lua Nzambi Kiangebeni (Alemanha), que concede o prêmio para o melhor filme. DIVERSITY FILM AWARD, BEST FEATURE FILM (Melhor Longa-Metragem), BEST DOCUMENTARY FILM (Melhor Documentário) e BEST SHORT FILM (Melhor Curta-Metragem) também compõe a cerimônia de premiação, sendo os três últimos escolhidos pelo público, por meio de cédulas de votação entregues no início de cada exibição.
Este ano, o festival reúne mais de 30 convidados e convidadas, entre eles, Gaël Kamilindi (Suíça), Shandra Apondi (Quênia), Mohammed Sheikh (Somália/EUA), Zipporah Nyaruri (Quênia/Países Baixos), Alune Wade (Senegal), Theodora Shandé (Alemanha), Nantenaina Fifaliana (Madagascar), Poundo Gomis (França). No dia 02 de setembro de 2026, o festival publicou no Instagram uma carta pública manifestando uma denúncia sobre o visto negado ao diretor sudanês Ibrahim Omar, que exibirá o longa-metragem NOTHING HAPPENS AFTER THE REVOLUTION (2026) nos próximos dias.
Na postagem, a equipe destacou a contradição do governo alemão em promover ações de intercâmbio cultural, de forma livre e diversa, ao mesmo tempo que impede a entrada de um realizador africano em seu território. “Cultural Exchange Needs Open Door” [Intercâmbio Cultural Precisa De Portas Abertas] foram as palavras de ordem expressas pela manifestação, que também foi marcada por um pedido de intervenção política por parte da Embaixada da Alemanha no Cairo. Até a publicação deste texto, não tivemos nenhuma atualização sobre o caso.
Dando boas-vindas ao público do Afrika Film Festival Köln, Ibrahim Snoopy destacou, em texto escrito no catálogo do evento, a importância do cinema independente e sobre como ele nos possibilita contar histórias de modo a transcender fronteiras e continentes. É também por esse caminho que os curadores Jacqueline Nsiah (Gana), Fradique (Angola/EUA) e Ronnie Vitalia (Sudão/Alemanha)[1] apresentaram a edição deste ano na publicação oficial do evento, que abriga cerca de 80 filmes de mais de 20 países, convidando a audiência a questionar sobre suas perspectivas e conhecer novas vozes do cinema.
Statement on the current situation of The Afrika Film Festival Köln também chamou atenção entre os textos reunidos no catálogo. Reconhecendo o evento como um espaço para o dissenso, abrigando perspectivas que frequentemente são ignoradas e histórias que resistem à simplificação e distorção, o breve ensaio chama atenção para o período de instabilidade que passa o setor cultural no país e como isso impacta o financiamento para realização do festival, interpelando a refletir no desmonte da cultura como um projeto político.
“Não podemos deixar de nos manifestar”, afirma. “Não podemos deixar de nos posicionar contra a mobilização da extrema direita e as narrativas racistas. Não podemos deixar de lutar por melhores condições — por uma remuneração justa, por maior segurança e estabilidade para planejar o futuro e pelo reconhecimento do trabalho cultural pelo que ele realmente é: essencial[2].”
As tensões e ambiguidades que atravessam a realização da 23ª edição do Afrika Film Festival Köln são reflexos históricos em relação às populações racializadas, mas também do momento político e social vivido na Alemanha hoje. A realização de um festival de cinema dedicado à investigação e valorização da produção cinematográfica do continente africano (e além de seus limites geográficos) vai ganhando múltiplos contornos, que atravessam, circundam e ultrapassam o cinema.
Ao mesmo tempo, é a partir desta linguagem, isto é, reafirmando a importância da prática cinematográfica e da possibilidade de contar histórias, que o evento se constitui como um espaço de disputa representacional, de luta pela memória e de fomento das diferentes formas de imaginação africana e afro-diaspórica ao redor do mundo.
[1] Também assinam a curadoria/assistência curatorial da 23ª edição do Afrika Film Festival Köln: Benga Mavinga (Alemanha), Clarissa Fahrenholz (Alemanha), Chima Nwoke (Nigéria/Alemanha), Kaddi Wandaogo (Alemanha), Muslim Nassor Al-Hamdan (Alemanha), Arin Zumkley (Alemanha), Black & Queer NRW (Alemanha) e deepower e. V. (Alemanha).
[2] No original: “We must not stop speaking out. We must not stop standing up against right-wing agitation and racist narratives. We must not stop fighting for better conditions – for fair pay, for planning security, for recognition of cultural work for what it is: essential.”
Acompanhe também os canais do Centro Cultural Brasil–Alemanha (CCBA)
Para conferir a cobertura do festival e os relatos de Lorenna Rocha diretamente de Colônia.
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