Entrevista especial: Hartmut Rosa

Por Ed Wanderley – edwanderley.pe@dabr.com.br – Publicação: 14/04/2014 – Diario de Pernambuco

Modernizações ambivalentes


Hartmut Rosa - por  Jurgen Bauer ©Volta e meia, temos a sensação de que o tempo está passando mais rápido. A condição do “estar sem tempo” acaba banalizada e nos entregamos a um cotidiano cada vez mais urgente. Esse estilo de vida “moderno” é o tema discutido, nesta semana, no Recife, pelo sociólogo e filósofo alemão Hartmut Rosa, autor de trabalhos como Alienação e aceleração: esboço de uma teoria da temporalidade moderna tardia. O professor da Universidade de Jena participa do ciclo de palestras Modernizações ambivalentes, dentro do ano Alemanha+Brasil 2013-14, que começa amanhã e segue até o dia 13 de maio, na Fundação Joaquim Nabuco, no bairro do Derby. Nesta entrevista, ele fala sobre a necessidade de desaceleração social e do caminho que Pernambuco deve seguir em seu desenvolvimento econômico e social para não repetir os erros dos “desenvolvidos”.

“A sensação de pressa é essencial para compreender a modernidade”

A “aceleração” não seria uma marca da própria modernidade? Ou apertamos demais o acelerador e passamos dos limites?

A aceleração social, de fato, pertence essencialmente à modernidade. Mas isso tudo é um processo na indústria material, social e cultural. Há estágios diferentes de velocidades. Desde 1990, o mundo experimenta a mais recente onda de aceleração: as revoluções política e digital, com o advento da internet e da abertura da “cortina de ferro”, que expôs todos os países aos cursos e fluidos da economia do imediatismo produtivo. A verdade é que não é fácil imaginar um limite e a história nos ensina que corpos e mentes podem se adaptar ao aumento dessa velocidade. Até mesmo os limites ecológicos podem ser mais elásticos do que pensávamos.

Mas testar esses limites pode ameaçar, de alguma forma, essa “modernidade”?

Há dois processos de modernização. Um é marcado por velocidade e aceleração e o outro, que é um projeto político e cultural, voltado para a autonomia e auto-determinação. O desenvolvimento de novas tecnologias e o avanço da ciência vêm aumentando as possibilidades para indivíduos e coletividade, enquanto a “sociedade da aceleração” ajudou a criar recursos para a liberdade política e individual. Mas nessa modernidade tardia, vamos perdendo nosso potencial de autonomia para as demandas dessa velocidade: politicamente, precisamos fazer de tudo e concentrar energia em nos mantermos competitivos, para manter a engenharia do crescimento funcionando. Mas em vez de moldarmos a comunidade que esperamos, acabamos focados em satisfazer esse sistema de velocidade. As pessoas, em vez de usarem os recursos que levam à “boa vida”, se esforçam o dia inteiro (e parte da noite) numa implacável “corrida de ratos”, sem nunca deixar de lado suas listas de afazeres com medo de ficar para trás ou desmotivadas. O irônico é que os mesmos meios que criaram espaço para a autonomia, agora a tomam.

Pensadores do século 19, como Baudelaire, já discutiam essa sensação de velocidade há dois séculos. Ela não esteve sempre aqui? Há diferença hoje?

A sensação de pressa é um elemento essencial para compreender a modernidade e existe desde o iluminismo, ainda no século 18, com Marx, Engels, Weber ou Simmel. Todos eles já sentiam e reclamavam sobre a velocidade, sempre ambivalente. Isso porque ela era atraente e também uma ameaça. Nesse sentido, não experimentamos algo novo, mas acredito que o balanço entre esses dois pontos agora pode ser encarado de forma negativa: as pessoas do mundo moderno não esperam que ele fique melhor para os seus filhos, como antes, apenas têm esperança que não fique pior, uma vez que a sombra e as ameaças dessa “velocidade” nunca estiveram maiores.

E como os problemas do passado, que sempre existiram, como hiperatividade ou depressão, podem estar atrelados a este estilo de vida “moderno”?

Emile Durkheim já nos lembrava que para todo tipo de doença ou crime, há razões individuais. Depressão, esquizofrenia, neuroses… Tudo já existia em todo tipo de sociedade. Por outro lado, ele também nos mostra que o que muda em formas específicas de doenças é a incidência. Julgando a partir de todos os dados que temos, não há dúvidas que transtornos provenientes de esgotamento físico e mental aumentaram dramaticamente na sociedade recente. E isso não vem da sensação de sobrecarga, mas da sensação de futilidade. As pessoas amam trabalhar, e trabalhar rápido, mas somente se há um objetivo a ser alcançado. Hoje, muita gente sente que tem que correr cada vez mais rápido para permanecer no mesmo lugar. E é isso que parece fazer as pessoas adoecerem.

Sociólogo acredita que a aceleração permanente levará à alienação.

Sociólogo acredita que a aceleração permanente levará à alienação.

Como essa pressa afeta a questão cultural ou de preservação de uma cidade?

Eventualmente, a aceleração permanente levará à alienação, no sentido de ficarmos cada vez menos familiarizados com as pessoas com as quais interagimos, os lugares que vivemos ou as ferramentas que usamos. E, para mim, alienação é um estado em que tudo se torna frio, mudo e silencioso: nada nos toca e não conseguimos tocar os outros. A balança mudou com o tempo quando se trata da preservação da memória e do ritual. Antes, a mudança e a inovação tinham que ser justificadas com a pergunta: “Por que você quer mudar isso?” Hoje, a pergunta é: “Por que você quer manter essa coisa ou estilo velho?” A conservação é que busca justificativa. Nas cidades mais desenvolvidas, entretanto, há um aumento de resistência quanto às intervenções urbanísticas e arquitetônicas. Na Alemanha, por exemplo, chegamos a um ponto de esclerose, onde em qualquer votação popular, decide-se contra novas construções, seja de estações, aeroportos, rodovias ou shopping centers, numa tentativa de evitar a reconstrução da parte mais interna e essencial da própria cidade.

Muito se fala sobre o desenvolvimento econômico de Pernambuco e do Brasil. Como não repetir os erros de outras nações e identificar as oportunidades de construir uma sociedade mais coesa?

Não sou contra o desenvolvimento e acho que mudanças podem ser válidas para Pernambuco. Mas sempre tem que haver objetivo. Nos supostos países “desenvolvidos” da Europa ou América do Norte, o estado permanente de aceleração, crescimento e inovação já não se faz para chegar a canto algum, nem melhorar nada, apenas para preservar o status quo. É quando tudo começa a dar errado. Os pernambucanos devem se envolver no debate político e econômico para definir o próprio conceito de “boa vida”, criando uma realidade com a qual possam se identificar e manter, em vez de focar na satisfação das metas do capital ou do Banco Mundial, por si só. A herança histórica tem que ser mantida para construir ou preservar uma cultura local. Até onde posso identificar, deve-se pensar na forma de crescimento e velocidade de Pernambuco, que ao mesmo tempo, atenda a um estilo de vida que se deseja. Essa é a pergunta a se fazer.

Saiba mais
  • Hartmut Rosa nasceu em 15 de agosto de 1965, na Alemanha
  • Autor de 11 obras sobre a sociedade moderna, traduzida para várias línguas, incluindo o português
  • A versão de AlienationandAcceleration: Towards a CriticalTheoryof Late-ModernTemporality chega ao Brasil até o final de 2014
  • Começou a carreira na Universidade Albert-Ludwigs, em Friburg, na área de ciência política, filosofia e literatura alemã
  • No ano passado, assumiu a diretoria do Centro Max Weber de Estudos Sociais e Culturais avançados da Universidade de Erfurt
  • Palestras do evento “Alemanha + Brasil” serão realizadas sempre às 19h, na Fundação Joaquim Nabuco
Mais informações:

(81)3421-2173 ou http://www.ccba.org.br/modernizacoesambivalentes/