Author: Bárbara Buril

Cobertura da documenta 14 em Kassel na Continente

Cobertura documenta14 - Kassel / Alemanha

Cobertura documenta14 – Kassel / Alemanha

A partir do dia 7 de junho, a cobertura da documenta 14 em Kassel acontecerá através de um blog da Revista Continente dedicado ao tema. A jornalista Bárbara Buril, que estará na cidade alemã durante o período de abertura da exposição, enviará informações sobre  as obras que serão expostas nos espaços tradicionalmente reservados para a documenta, como o Museu Fridericianum, até os debates, performances e intervenções que acontecem ao ar livre na programação paralela da documenta. A cobertura segue até a próxima segunda-feira (12). Para conferir o blog acesse este link.

 

Reflexões sobre a documenta 14 no Janela Crítica

O curador Moacir dos Anjos, que viajou para Atenas a convite do CCBA, publicou no suplemento Janela Crítica, do Valor Econômico, reflexões sobre a documenta 14 em Atenas. Para conferir o texto completo online, basta se cadastrar no site. O jornal, do qual o CCBA é um assinante, também fica à disposição na biblioteca do centro.

 

Uma visão do Norte sobre o Sul?

I KULTURFORUM CCBA – Documenta 14

As contradições da versão ateniense da documenta 14 foram problematizadas em seus diversos aspectos no I KULTURFORUM “Sul como estado mental”, promovido pelo Centro Cultural Brasil Alemanha (CCBA), na última segunda-feira (24). O curador Moacir dos Anjos, que esteve presente na abertura daquela que é considerada uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo, na Grécia, contrapôs o discurso curatorial desta edição ao que de fato foi realizado curatorialmente: apesar do lema da documenta 14 ser abordar as complexidades do Sul político global, o que se viu mais fortemente foi ainda uma visão do Norte político sobre o Sul, ou simplesmente uma visão do Norte sobre si mesmo.

A perspectiva pouco conectada com as reais problemáticas do Sul político se traduziu não só na presença rarefeita de obras de artistas latino-americanos, mas também na ausência de criações de artistas brasileiros na exposição. Algo realmente inesperado, quando se leva em consideração o fato de a arte contemporânea brasileira estar, nos últimos anos, tão intensamente implicada nos debates trazidos pela equipe da documenta, pelo menos em seu discurso curatorial. Desastre ecológico, crise econômica e política e genocídio indígena, por exemplo, têm sido temas prementes nas criações de artistas brasileiros, como se vê nos trabalhos de Dora Longo Bahia, Thiago Martins de Melo, Rodrigo Braga, Jonathas de Andrade e Cláudia Andujar, por exemplo.

Como aponta Moacir dos Anjos, baseando-se em uma entrevista concedida pelo curador curador Adam Szymczyk para a rádio alemã: “houve de fato uma boa vontade de falar a partir do Sul, mas, em todo o momento da exposição e nas próprias declarações dos curadores, se ouve uma fala do Norte ‘norteando’ a exposição. Em uma entrevista concedida pelo curador  Szymczyk, ele mesmo disse: ‘naturalmente, pode-se nos acusar que não nos engajamos com a arte de Atenas. É preciso dizer: nós não estávamos tão interessados assim na arte de Atenas, mas na cidade como organismo vivo. Atenas não significa apenas ela. Ela também significa outras cidades do mundo. Nossa edição nunca quis representar a cena de arte de Atenas. Se as pessoas aqui não se sentem adequadamente representadas. eles devem pensar como devem fazer para serem mais ouvidas e representadas no mundo”.

 

I KULTURFORUM CCBA – Documenta 14

Para Moacir dos Anjos, também houve uma certa negligência da equipe curatorial da documenta 14 a todo um cenário artístico bastante provocativo e sintonizado com os debates propostos pela exposição. A falta de representação da arte contemporânea grega na documenta 14 chegou, inclusive, a ser bastante criticada pela cena artística ateniense que, um dia antes da abertura da documenta, realizou a abertura da Bienal de Atenas – um evento não tão importante quanto a documenta, mas que reunia toda uma cena artística grega completamente excluída do evento. Como apontou o curador, o que se viu foi uma Atenas “usada” como cenário para a documenta, sem realmente ser incluída na exposição – como se uma espécie de óvni tivesse aportado na Grécia, nos moldes de um colonizador do Norte, para problematizar questões de um Outro que não teve direito de voz.

Ainda do ponto de vista curatorial, Moacir dos Anjos problematizou determinadas escolhas expositivas que inclusive reforçaram o isolamento da documenta em si mesma. Nenhuma obra de arte contava com placas explicativas sobre a nacionalidade do artista ou ano da obra, o que, para ele, em vez de ajudar o espectador a imergir na obra, apenas o afastava dela.  “O que acontece é que, ao longo do processo de construção desse projeto, o conceito de ‘Aprender com Atenas’ foi sendo lentamente abandonado e substituído pelo conceito de ‘uneducation’, que significa deseducação ou contra-educação – o que é contrario à educação que conhecemos. A ideia era que a documenta deveria criticar o próprio modo como se entende qual é o papel de uma exposição e quais são os papeis dos poderes normativos e reguladores de uma exposição de arte – de estabelecer critérios, de ensinar. A arte deveria deseducar de alguma maneira, fragilizando a própria ideia de programa educativo”, conta Moacir.

O resultado, como aponta Moacir dos Anjos é que, no limite,  faltavam as informações mais básicas sobre os trabalhos presentes nas mostras.  “Não havia informações sobre o nome ou o ano da obra. Só se podia encontrar o nome do artista, impresso em um papel no chão com uma pedra de mármore em cima”, relata o curador. Tratava-se, portanto, de uma estratégia deliberada dos curadores de não darem informações para os visitantes. O resultado, para o curador, foi que a falta dessas informações não levava ao envolvimento do público ateniense, mas, ao contrário, ao desinteresse. “Ao contrário das pessoas que consomem arte contemporânea em cidades como Berlim, Nova Iorque ou Kassel, o público médio ateniense ainda é bastante condicionado ao que se esperar de uma exposição de arte e condicionamentos não são desfeitos assim tão facilmente”, detalha Moacir dos Anjos.

I KULTURFORUM CCBA – Documenta 14

As questões trazidas por Moacir dos Anjos, a meu ver, apontam para dois problemas enfrentados atualmente pelo campo da arte:

1) A dificuldade da documenta 14 de realmente problematizar a realidade do Sul, sem ser a partir de uma visão colonizadora, não revelaria as limitações do campo da arte em sair de sua própria epistemologia, desenvolvida inclusive no Norte? Ou seja, como o campo da arte pode sair de sua própria lógica limitada a fim de dar conta de outras realidades de modo mais honesto?

2) A falta de um texto no amparo às obras, sentida pela maior parte das pessoas, também não revelaria o quanto a arte contemporânea depende do discurso para se fazer entendida ou sentida? Este fato não reafirmaria, mais uma vez, o fato de a arte estar limitada a uma certa epistemologia pensada pelo Norte, e tirando do campo da arte tudo aquilo que não se assemelha com essa performance particular?

Certamente, tratam-se de questões complexas que não chegaram a ser esgotadas ou respondidas no encontro, mas que apontam para futuros debates, principalmente após vermos a recepção da documenta na sua cidade-mãe, Kassel, em junho. O que se espera de positivo, até agora, é que pelo menos ela será melhor recebida no seu reduto – o Norte político e geográfico do mundo.

I KULTURFORUM CCBA – Documenta 14

 

KULTURFORUM problematiza a documenta 14 de Atenas

Pagamento da dívida grega para a Alemanha com azeitonas e arte. 2017, de Marta Minujín. Crédito: Haupt & Bind.

Na próxima segunda-feira (24.04.2017), às 19h, o Centro Cultural Brasil Alemanha (CCBA) realiza o I KULTURFORUM “Sul como estado mental”, a fim de debater a proposta curatorial da documenta 14 a partir das experiências do curador e pesquisador Moacir dos Anjos, que esteve presente na abertura da décima quarta edição da exposição, na cidade de Atenas (Grécia). Inicialmente, a jornalista e pesquisadora Bárbara Buril fará uma contextualização sobre o que é a documenta, como ela se insere no panorama de outras grandes exposições e bienais dedicadas à arte contemporânea e qual é a proposta desta edição. O CCBA fica na Rua do Sossego, 364, no bairro da Boa Vista (Recife). O evento é aberto ao público.

Para o curador Moacir dos Anjos, “embora o conceito curatorial desta edição busque trazer a ideia de  ‘sul como estado mental’ como diz o slogan da documenta 14, o que se vê ainda é um  ‘norte como estado mental’, uma vez que a escolha dos artistas que integram esta edição ainda é muito eurocêntrica”. “South as a state of mind” é o título da publicação produzida pela equipe da documenta, que reúne textos, ensaios, poemas e artigos que inspiraram, de alguma forma, a orientação curatorial desta edição. O conceito  da documenta 14 será abordada por Moacir dos Anjos a partir de obras de arte encontradas durante os seis dias que o curador ficou em Atenas.

O II KULTURFORUM “Sul como estado mental” acontecerá no mês de agosto, com os relatos da jornalista Bárbara Buril sobre a documenta 14 em Kassel, na Alemanha.  Nesta edição, a documenta 14 acontece em Kassel e em Atenas, devido a uma intenção curatorial declarada de friccionar limites e desafiar fronteiras. O tema desta edição, “Learning from Athens”, recorre à Atenas não só como símbolo da crise financeira global e  migratória na Europa, mas também como ícone representativo da democracia.

Os dois eventos, dedicados a problematizar a documenta 14 tanto nos seus aspectos curatoriais como no modo como ela se insere entre as grandes exposições de arte contemporânea, são realizados a partir de uma parceria entre CCBA, Revista Continente e Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).  O KULTURFORUM é um evento promovido mensalmente pelo CCBA para debater questões sociais contemporâneas.

Paradoxos da versão ateniense da documenta 14

I KULTURFORUM CCBA – Documenta 14

Moacir dos Anjos

Por acontecer somente a cada cinco anos, a documenta é talvez a mostra de arte contemporânea mais aguardada por aqueles que acompanham o que se produz nesse meio. As expectativas sobre a sua 14a edição são ainda maiores do que as usuais pelo fato de pela primeira vez ela acontecer de forma dividida territorialmente, entre sua sede em Kassel, Alemanha, e na cidade de Atenas, Grécia. Essa partição implica, evidentemente, uma aposta política dos curadores da mostra (à frente o polonês Adam Szymczyk) em transformar a documenta em plataforma para discutir questões que têm, nesses dois países, polos em conflito a desempenhar papeis em quase tudo antagônicos no mundo atual. Não por acaso que muitos dos trabalhos apresentados versam sobre migrações, dívida, desemprego, refugiados e responsabilidades de países e grupos sociais pela situação de crise por que hoje passa o mundo.

Nesse contexto, a documenta e seus curadores, todos do chamado Norte político do mundo (europeu e branco), apresentou como título de trabalho da mostra a ideia de ter o “Sul como estado de espírito” (South as a state of mind). A intenção expressa seria, portanto, fazer uma exposição sobre as questões que afetam hoje o mundo da perspectiva daqueles que com elas mais sofrem. Estariam dispostos, como também sugeriram em diversos comunicados de imprensa, a “aprender com Atenas”, colocando-se empaticamente no lugar dos politicamente subordinados a países hegemônicos. Inversão que ganha contornos mais definidos quando se consideram os papeis desempenhados, no contexto da economia europeia recente, por Grécia e Alemanha.

No dia 6 de abril foi inaugurada a primeira parte da exposição, em Atenas, contanto com cerca de uma centena e meia de artistas, a maior parte deles da Europa. Em meados de junho, esses mesmos artistas (com uma ou outra pequena variação) apresentarão outros trabalhos em Kassel, completando assim o projeto da exposição. Como qualquer grande projeto expositivo, é difícil formar um juízo apurado de seu conjunto, posto que são muitas as vozes que participam desse esforço de locução simbólica.

Algumas notas podem, contudo, ser feitas de saída, ainda sem adentrar em projetos artísticos específicos: apesar da disposição anunciada de falar através da voz do Sul e sobre as questões que ali são mais urgentes, são poucos os artistas provenientes das porções mais subordinadas do mundo presentes na exposição. Paradoxalmente, ter o Sul como estado de espírito parece ser, aos curadores da mostra, condição suficiente para falar não somente sobre o outro, mas no lugar dele. Não há de ter sido à toa que os primeiros dias de exposição foram marcados por protestos de artistas, curadores e educadores locais acerca do que consideram um projeto curatorial pouco generoso com o ambiente local, usado, de seu ponto de vista, mais como cenário político do que como lugar a ser efetivamente enfrentado.

Esse paradoxo ficou claro àqueles que compareceram, ao fim do dia de inauguração da documenta, à festa promovida pela prefeitura de Atenas para os curadores e convidados da mostra. Dentro de um cercadinho vigiado por guardas, uma das principais praças da cidade abrigava gente bem vestida, comida e bebida típicas da Grécia e uma banda de música que ficaria bem, talvez, em um filme ruim de Woody Allen que viesse a ser filmado em Atenas. Do lado de fora da cerca, algumas faces dos muitos moradores de rua de Atenas olhavam desconfiados para aquilo tudo, sabedores de que aquela festa, como tantas outras, não era mesmo para eles. Viajar até o Sul é complicado mesmo.

 

 

documenta 14: arte e ativismo político entre Atenas e Kassel

“Ativismo não é só mais um ‘ismo’. É uma forma de vida. Não existe uma situação ou comportamento ‘apolítico’, tudo é político, na verdade”, responde o diretor artístico da 14ª edição da documenta, Adam Sczymczyk,  à pergunta “como separar a arte do ativismo político?”, da rádio Deutsche Welle (confira a entrevista aqui). A resposta de Sczymczyk evidencia a orientação curatorial da 14ª  edição do mais importante encontro do mundo dedicado à arte contemporânea: a arte, por se situar politicamente independentemente de quaisquer circunstâncias, deve se posicionar.

Nesta edição, a documenta 14 acontece não só na sua cidade-mãe, Kassel, na Alemanha, mas também em Atenas, na Grécia, devido a uma intenção curatorial declarada de friccionar limites. O tema desta edição, “Learning from Athens”, recorre à Atenas não só como símbolo da crise financeira global e  migratória na Europa, mas também como ícone representativo da democracia. “Foi lá onde tudo começou”, justifica Sczymczyk. Além disso, a escolha de levar a exposição para Atenas está ligada a uma das principais intenções desta edição, que é fazer com que a arte crie pontes e supere fronteiras que a economia e a política não são capazes de realizar hoje.

Essa escolha também está ligada à ideia de que se “o Sul é um portão de entrada da migração, o Norte é uma fortaleza”, como Szymczyk afirma, dando conta da ideia de sul e norte políticos, e não geográficos. Para Sczymczyk, “a humanidade está em uma situação de perigo de vida. Vemos regimes repressivos e canibalistas devido a religões, pessoas que trabalham conjuntamente para destruir o meio ambiente, o planeta. Não quero ser apocalíptico, mas vemos um cenário no qual o neoliberalismo e neocolonialismo causam um efeito negativo profundo na vida de pessoas de muitos lugares do mundo”.

A documenta 14, então, busca se inserir em um movimento emancipatório e questionador a partir de obras de arte provocadoras e ainda pouco conhecidas pelo público especializado em arte. Como afirmou Sczymczyk em entrevista para a Deutsche Welle, “o meu papel e o da minha equipe é o de tirar da invisibilidade vozes ainda invisíveis”.

Além disso, o evento adotou o lema “South as a state of mind”, que dá o título de uma publicação onde artigos, poemas e críticas provocativos tratam dos temas que parecem marcar essa edição. Já é possível perceber, através da revista, que estão entre as questões principais dessa edição ecologia, fome, crise, genocídio indígena, imigração e transsexualidade. Acesse a revista aqui.

A documenta começa, então, em Atenas amanhã (8) e segue até 16 de julho. Em Kassel, inicia no dia 10 de junho e encerra no dia 17 de setembro. Ambas as versões coexistem, então, durante os meses de junho e julho.  A programação da semana inaugural da documenta em Atenas já pode ser acessada aqui.

الشاهد – الجهاد The Witness – The jihad from abou naddara on Vimeo.

Os vídeos do cineasta sírio Abounaddara estão presentes na programação cinematográfica da documenta 15. Este filme está entre os mais de 300 vídeos produzidos semanalmente por um coletivo anônimo de cineastas sírios. desde 2010. 

A documenta começa, então, em Atenas amanhã (8) e segue até 16 de julho. Em Kassel, inicia no dia 10 de junho e encerra no dia 17 de setembro. Ambas as versões coexistem, então, durante os meses de junho e julho.  A programação da semana inaugural da documenta em Atenas já pode ser acessada aqui.

Inserido no debate entre arte e política, o curador Moacir dos Anjos estará presente em ambas as cidades durante o período da documenta, através de uma parceria entre Centro Cultural Brasil-Alemanha (CCBA) e Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). A experiência de Moacir dos Anjos na documenta 14 de Atenas serão relatadas no I Kulturforum – documenta 14, no dia 24 de abril, no CCBA. Moacir dos Anjos foi curador do pavilhão brasileiro (Artur Barrio) na 54ª Bienal de Veneza (2011), curador da 29ª Bienal de São Paulo (2010), co-curador da 6ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre (2007), e curador do 30º Panorama da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna (2007), em São Paulo. Foi curador da mostra coletiva Cães sem Plumas (2014), no Mamam.