I KULTURFORUM CCBA – Documenta 14

As contradições da versão ateniense da documenta 14 foram problematizadas em seus diversos aspectos no I KULTURFORUM “Sul como estado mental”, promovido pelo Centro Cultural Brasil Alemanha (CCBA), na última segunda-feira (24). O curador Moacir dos Anjos, que esteve presente na abertura daquela que é considerada uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo, na Grécia, contrapôs o discurso curatorial desta edição ao que de fato foi realizado curatorialmente: apesar do lema da documenta 14 ser abordar as complexidades do Sul político global, o que se viu mais fortemente foi ainda uma visão do Norte político sobre o Sul, ou simplesmente uma visão do Norte sobre si mesmo.

A perspectiva pouco conectada com as reais problemáticas do Sul político se traduziu não só na presença rarefeita de obras de artistas latino-americanos, mas também na ausência de criações de artistas brasileiros na exposição. Algo realmente inesperado, quando se leva em consideração o fato de a arte contemporânea brasileira estar, nos últimos anos, tão intensamente implicada nos debates trazidos pela equipe da documenta, pelo menos em seu discurso curatorial. Desastre ecológico, crise econômica e política e genocídio indígena, por exemplo, têm sido temas prementes nas criações de artistas brasileiros, como se vê nos trabalhos de Dora Longo Bahia, Thiago Martins de Melo, Rodrigo Braga, Jonathas de Andrade e Cláudia Andujar, por exemplo.

Como aponta Moacir dos Anjos, baseando-se em uma entrevista concedida pelo curador curador Adam Szymczyk para a rádio alemã: “houve de fato uma boa vontade de falar a partir do Sul, mas, em todo o momento da exposição e nas próprias declarações dos curadores, se ouve uma fala do Norte ‘norteando’ a exposição. Em uma entrevista concedida pelo curador  Szymczyk, ele mesmo disse: ‘naturalmente, pode-se nos acusar que não nos engajamos com a arte de Atenas. É preciso dizer: nós não estávamos tão interessados assim na arte de Atenas, mas na cidade como organismo vivo. Atenas não significa apenas ela. Ela também significa outras cidades do mundo. Nossa edição nunca quis representar a cena de arte de Atenas. Se as pessoas aqui não se sentem adequadamente representadas. eles devem pensar como devem fazer para serem mais ouvidas e representadas no mundo”.

 

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Para Moacir dos Anjos, também houve uma certa negligência da equipe curatorial da documenta 14 a todo um cenário artístico bastante provocativo e sintonizado com os debates propostos pela exposição. A falta de representação da arte contemporânea grega na documenta 14 chegou, inclusive, a ser bastante criticada pela cena artística ateniense que, um dia antes da abertura da documenta, realizou a abertura da Bienal de Atenas – um evento não tão importante quanto a documenta, mas que reunia toda uma cena artística grega completamente excluída do evento. Como apontou o curador, o que se viu foi uma Atenas “usada” como cenário para a documenta, sem realmente ser incluída na exposição – como se uma espécie de óvni tivesse aportado na Grécia, nos moldes de um colonizador do Norte, para problematizar questões de um Outro que não teve direito de voz.

Ainda do ponto de vista curatorial, Moacir dos Anjos problematizou determinadas escolhas expositivas que inclusive reforçaram o isolamento da documenta em si mesma. Nenhuma obra de arte contava com placas explicativas sobre a nacionalidade do artista ou ano da obra, o que, para ele, em vez de ajudar o espectador a imergir na obra, apenas o afastava dela.  “O que acontece é que, ao longo do processo de construção desse projeto, o conceito de ‘Aprender com Atenas’ foi sendo lentamente abandonado e substituído pelo conceito de ‘uneducation’, que significa deseducação ou contra-educação – o que é contrario à educação que conhecemos. A ideia era que a documenta deveria criticar o próprio modo como se entende qual é o papel de uma exposição e quais são os papeis dos poderes normativos e reguladores de uma exposição de arte – de estabelecer critérios, de ensinar. A arte deveria deseducar de alguma maneira, fragilizando a própria ideia de programa educativo”, conta Moacir.

O resultado, como aponta Moacir dos Anjos é que, no limite,  faltavam as informações mais básicas sobre os trabalhos presentes nas mostras.  “Não havia informações sobre o nome ou o ano da obra. Só se podia encontrar o nome do artista, impresso em um papel no chão com uma pedra de mármore em cima”, relata o curador. Tratava-se, portanto, de uma estratégia deliberada dos curadores de não darem informações para os visitantes. O resultado, para o curador, foi que a falta dessas informações não levava ao envolvimento do público ateniense, mas, ao contrário, ao desinteresse. “Ao contrário das pessoas que consomem arte contemporânea em cidades como Berlim, Nova Iorque ou Kassel, o público médio ateniense ainda é bastante condicionado ao que se esperar de uma exposição de arte e condicionamentos não são desfeitos assim tão facilmente”, detalha Moacir dos Anjos.

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As questões trazidas por Moacir dos Anjos, a meu ver, apontam para dois problemas enfrentados atualmente pelo campo da arte:

1) A dificuldade da documenta 14 de realmente problematizar a realidade do Sul, sem ser a partir de uma visão colonizadora, não revelaria as limitações do campo da arte em sair de sua própria epistemologia, desenvolvida inclusive no Norte? Ou seja, como o campo da arte pode sair de sua própria lógica limitada a fim de dar conta de outras realidades de modo mais honesto?

2) A falta de um texto no amparo às obras, sentida pela maior parte das pessoas, também não revelaria o quanto a arte contemporânea depende do discurso para se fazer entendida ou sentida? Este fato não reafirmaria, mais uma vez, o fato de a arte estar limitada a uma certa epistemologia pensada pelo Norte, e tirando do campo da arte tudo aquilo que não se assemelha com essa performance particular?

Certamente, tratam-se de questões complexas que não chegaram a ser esgotadas ou respondidas no encontro, mas que apontam para futuros debates, principalmente após vermos a recepção da documenta na sua cidade-mãe, Kassel, em junho. O que se espera de positivo, até agora, é que pelo menos ela será melhor recebida no seu reduto – o Norte político e geográfico do mundo.

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