por Lorenna Rocha

No meu primeiro dia de programação do Afrika Film Festival Köln, oficialmente o segundo do evento, acompanhei a mesa New Voices, New Forms – The African Documentary Today, que contou com a mediação da curadora Jacqueline Nisiah e a participação da documentarista Zipporah Nyaruri (Quênia/Países Baixos), do ator e diretor Gaël Kamilindi (Ruanda/França) e do animador Bassem Ben Brahim (Tunísia). Respectivamente, eles são realizadores dos filmes Truck Mama (2025), Taxi Moto (2026) e From Male and Female (2026). Na ocasião, o grupo compartilhou sobre seus processos de criação, como suas formações individuais impactaram na feitura do longa e curtas-metragens e refletiu acerca dos dilemas éticos que envolvem a prática documental.
Enquanto Bassem Ben Brahim destacou a possibilidade de imaginação infinita na forma de construção de um filme de animação, a partir de suas memórias de infância, Zipporah Nyaruri e Gaël Kamilindi abordaram sobre como o ato de filmar e de documentar uma pessoa ou um grupo pode impor um tempo e características ao filme, isto é, àquilo que surgirá a ele a partir do contato com o outro. Sem respostas absolutas, eles também compartilharam sobre os desafios de lidar com relatos ou situações que chegam a algum tipo de limite de quem está em frente à câmera. Também foram abordadas questões em torno de uma dupla consciência, enquanto pessoas vivendo em diáspora, e a abertura para a construção de novas perguntas durante a realização dos filmes.
O dia continuou com as exibições dos longas-metragens Joy Boy: A Tribute To Julius Eastman (Mawena Yehouessi, Fallori Mayanja, Roy Jacobs, Victoire Karera Kampire, Paul Shemisi e Anne Reijniers, 2026), Black Burns Fast (Sanduela Asanda, 2026) e o programa de curtas-metragens DIASPORA SHORTS I: HOW TO BREAK FREE. A partir desses dois primeiros títulos, pensamos acerca dos códigos e das convenções cinematográficas, das performatividades e formas de expressão das corporeidades negras e queer. Aliás, podemos frisar o perceptível interesse do Afrika Film Festival Köln por filmes com perspectivas interseccionais, ressaltando, ainda, as diferenças formais presentes nos cinemas africanos e afro-diaspóricos.
★★★
STILL – JOY BOY

Joy Boy: A Tribute To Julius Eastman homenageia o compositor, músico, performer e ativista afro-americano a partir de uma bricolagem de programas performativos, inicialmente realizados para exibição em museus. Produzidas pelo coletivo de artistas que assina a direção do filme, as performances buscam encontrar ressonância e amplificar a musicalidade e militância de Julius Eastman, fazendo ecoar seu legado no solo da República Democrática do Congo.
Dividido em quatro partes, o longa-metragem opera seu regime imagético e sonoro por meio de sobreposições, justaposições, glitches e videoclipes, em que as corporiedades negras e queers estão em contato ativo com a experimentação presente na obra e vida de Eastman. Ao recusar exibir a imagem do rosto do artista, é a voz de seus depoimentos que conecta as diferentes performances que compõem o filme. Joy Boy estimula uma espécie de rasura criativa dessa memória, não como estado de negação, mas como possibilidade de reinventá-la.
Inspiradas pelas peças musicais Gay Guerrilha (1979) e Niggar Series (sem data especificada), os números performáticos insistem em desafiar a sonoridade do pianista afro-americano com os próprios corpos, sempre em movimento, com intervenções através de cartelas, que ditam palavras de ordem, e com a contínua mudança do registro fílmico. A persistência na duração dos planos, o uso de reverb nos arquivos das entrevistas de Eastman e de imagens desfocadas das ruas de Kinshasa criam uma instabilidade que compõe, dialoga e responde à materialidade sonora que está sob investigação.
Além de provocar uma crítica ao não-lugar dos movimentos LGBTQIAPN+ nas lutas de classe, Joy Boy empenha-se em dar destaque à singularidade dos seres a partir de uma imaginação coletiva. Como na sequência em que nos deparamos com uma ópera, que depois se torna um amontoado de vozes, criando uma polifonia. Orquestrada por um conjunto de imagens moleculares em negativo, que vão criando a imagem de um universo, o filme ativa uma meditação que repete o verso “each one is one” [cada um é um]. A repetição provoca uma mudança: “no one is free until everyone is free” [ninguém é livre até que todos sejam livres]. Em silêncio a tela e a imagem, a negrura do quadro transforma-se numa bandeira da Palestina e, posteriormente, da República Democrática do Congo.
Se, no início de Joy Boy, vemos um corpo disforme e multiplicado, alterado pelo glitch e pela textura de um ambiente de dados computacionais, as séries finais do longa-metragem escolhem por certa frontalidade do discurso e da imagem, o que faz com que seu ambiente polifônico e ruidoso acabe recaindo num tipo de linguagem e construção simbólica bem recorrente e desgastada do cinema contemporâneo. Por outro lado, a escolha por sequências duradouras, como a dança de quatro performers numa avenida de Kinshasa, por vezes acompanhada de olhares de estranhamento de transeuntes, devolvendo a música de Julius Eastman às ruas e ao povo congolês, é o que faz com que algo que soa um tanto óbvio prevaleça com certa ambivalência, uma ambiguidade, ou uma mistura de sensações, que persegue o filme do início ao fim.
★★★
STILL – BBF

Black Burns Fast lembra VBP (Vacas Brancas Preguiçosas) com seu humor juvenil e histriônico. Assim como no curta brasileiro de Asaph Luccas (2025), as imagens sofrem intervenções de cartelas e efeitos especiais com objetivo de tornar visíveis o mood e o cenário das ações, com forte influência das linguagens das redes sociais e do universo gamer. Ao dar atenção especial aos conflitos interraciais, de classe e sexualidade que vivem as personagens negras, o filme de high school busca criar deslocamentos criativos aos códigos convencionais do gênero, este historicamente centrado em narrativas protagonizadas por juventudes brancas e heterossexuais.
Misturando um pouco de Meninas Malvadas (Mark Waters, 2004), Euphoria (HBO, 2019-2026) e Insecure (HBO, 2016-2021), o longa-metragem nos apresenta Luthando (Esihle Ndleleni), uma jovem negra, nerd, que estampa a propaganda de uma escola cristã de elite da África do Sul. Preocupada em corresponder às expectativas dos professores brancos e da própria mãe, a personagem usa todo o tempo que tem para estudar. Seu cotidiano muda de cenário com a chegada de Ayanda (Muadi Ilung), recém-expulsa de outra instituição. Ao dar de cara com a novata na sala de aula, Luthando sente algo estranho, que tenta expurgar de si. Jodie (Mila Smith), sua melhor amiga, incentiva-a a lidar com os próprios desejos.
Ayanda rapidamente é convocada para estar dentro do grupo de garotas negras populares, que parecem sempre muito confiantes e conscientes de si mesmas. É nesse contraste entre dúvidas e certezas que a jornada de Luthando se insere, dando destaque a questões de auto-descoberta, pertencimento e auto-aceitação. É num passeio com as garotas para um brechó, dentro do provador de roupas, que aparecerá a primeira tensão sexual entre Ayanda e Luthando. Para ficar mais próxima de Ayanda, Luthando passa a aderir aos códigos das mean black girls, e acaba se distanciando aos poucos de Jodie, que sente a ausência da amiga. Pressionada pelas meninas, Luthando acaba tendo um date com um “nego doce” da escola (e todos os garotos negros, aliás, são bem caricatos na trama), com quem continuará mantendo contato às escondidas, mesmo encontrando-se frequentemente com Ayanda nas dependências da escola.
Luthando fuma o primeiro cigarro, se masturba pela primeira vez e passa a se dar mal com as notas da escola. Enquanto tenta comunicar a mãe sobre a sua sexualidade, num retorno para casa da família, tem um sonho com Ayanda, em que a garota aparece trajada de terno e usando bigode, em que as duas se beijariam. Nesse momento, Black Burns Fast aposta em não apenas criticar esse universo cisheteronormativo que ronda a garota, mas a introjeção dessa forma de sentir e olhar o mundo dentro de Luthando. Ao experienciar um estado paranóico com a própria sexualidade, que já parecia dada para Jodie, após o primeiro beijo o romance entre Ayanda e Luthando destrava. Mas não sem aparecer conflitos de classe entre ambas, visto que Luthando está numa posição social inferior a de Ayanda, o que parece moldar a forma como esta personagem se relaciona com o mundo ao seu redor; isto é, por vezes, de forma bastante descartável.
O momento ápice do conflito entre as duas é quando Ayanda, chateada ao descobrir sobre os dates de Luthando com o “nego doce”, arma um encontro para que ele veja as duas juntas. Ele grava as duas e faz um exposed nas redes sociais, o que acaba gerando um grande problema na escola. A tentativa de manter a norma, por sua vez, aparece sempre de forma caricata, em que as jovens negras assumem o lugar do conflito e buscam proteger o casal. No meio disso, Luthando quebra a relação com Ayanda e retoma sua amizade com Jodie. A personagem da mãe, interpretada por Faniswa Fisa, é quem assume um lugar de meio termo especialmente interessante: ao invés de resolver o conflito entre as duas, o filme deixa emergir um caráter ambíguo da relação, em que o preconceito no âmbito familiar e o amor entre mãe e filha acontecem ao mesmo tempo.
No baile da escola, ao invés do final romântico esperado, apesar da reaproximação amistosa entre Luthando e Ayanda, Black Burns Fast termina com Jodie e Luthando celebrando a amizade. O longa-metragem não opta por trazer apenas uma curva de ascensão em sua narrativa, mas um acúmulo de problemas e irresoluções entre as personagens. As situações de conflito chegam aos seus limites com grandes doses de humor, sem medo de soar caricato, mostrando a possibilidade de construir uma postura crítica através de um olhar cômico e potencialmente ambíguo. Ainda que totalmente imerso na linguagem do cinema comercial, o filme de Sanduela Asanda brinca com os códigos convencionais de filmes de high school e constrói uma perspectiva singular e divertida sobre as juventudes negras e queer.
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