Texto: Lucas Bezerra
No livro, o historiador propõe distinção entre crítica ao Estado de Israel e preconceito contra judeus, assim como fez o escritor israelense Amós Oz
Em meio a uma escalada de episódios que reacendem o debate sobre os limites entre a crítica política e a discriminação, o historiador Karl Schurster lança “O antissemitismo prático: o passado foi enterrado vivo e pode retornar a qualquer momento“. A obra, publicada em 2025, visa responder a pergunta: como distinguir uma crítica legítima ao Estado de Israel de um ato de antissemitismo? O livro também questiona o que significa o Estado de Israel ser acusado ou não de genocídio. As respostas, segundo o autor, exigem uma explicação que o debate público, na prática, tem evitado explicitar.
O título do livro faz referência à ideia de que o antissemitismo não é um passado superado, mas uma força que segue a respirar sob a superfície do presente. É um fenômeno que pode ressurgir a qualquer momento, em novas roupagens, sempre que as condições sociais e políticas forem favoráveis.
No último mês, três episódios ocorridos no Brasil ressuscitaram a tensão em torno dessa questão: a confusão envolvendo moradores e turistas israelenses em Itacaré, na Bahia; o bar no Rio de Janeiro que proibiu a entrada de israelenses e estadunidenses no estabelecimento e a proposta de lei da deputada Tábata Amaral (PSB-SP) que tipifica como crime críticas ao Estado de Israel. Esses casos se
juntam aos dados de um levantamento feito pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB), que apontou que, desde 2022, o número de casos de antissemitismo no Brasil aumentou 150% e que em 2025 foram registrado 989 casos.
O livro de Schurster não comenta diretamente nenhum dos casos, mas propõe ferramentas conceituais para analisá-los, enquanto delimita a fronteira entre a crítica legítima e embasada e o mero discurso de ódio.
O livro
“O 7 de outubro de 2023 e Gaza levaram a discussão sobre antissemitismo a um outro patamar. Não se tratava mais da memória ou do nazismo e eu queria entender mais isso”, explica Schurster sobre o que o motivou a começar o livro. Ele conta que fez toda a pesquisa em Berlim por um motivo: “tinha uma coisa na Alemanha que me incomodava, que era a ideia do apoio incondicional a Israel”. Schurster explica que enquanto quase todos os países da Europa diziam, com ressalvas, que Israel tinha o direito de se defender, a Alemanha, por outro lado, se recusava a fazer ressalvas. Ele também lembra que ficou intrigado quando viu a bandeira de Israel hasteada na prefeitura vermelha de Berlim.
“Mais do que visitar bibliotecas ou arquivos [na Alemanha], o que eu queria era ver pessoas, era falar com pessoas e ver como é que o espaço urbano da Alemanha se portou perante os eventos internacionais que estavam acontecendo”, continua o autor.
A tese central do livro é a distinção entre duas modalidades de antissemitismo, uma grande influência do pensamento de Hayden White e do seu livro ‘O Passado Prático’. A primeira, chamada de “antissemitismo histórico”, refere-se a uma tradição de perseguição aos judeus que perpassa o antijudaísmo cristão, por exemplo, e culmina no Holocausto. Trata-se, segundo Schurster, de um fenômeno já cristalizado na memória coletiva e ainda não superado.
A segunda modalidade, moneada de “antissemitismo prático”, é descrita como um mecanismo operante no presente. Ele se manifesta, de acordo com o livro, nos gestos cotidianos, nas palavras naturalizadas e nas estruturas invisíveis que organizam as sociedades. Diferentemente do antissemitismo histórico, este não se apresenta como lembrança distante, mas como matéria viva que molda opiniões, desloca culpas e redefine quem tem o direito de sofrer.
Para o historiador, essa distinção não é preciosismo. Ela tem implicações diretas na forma como a sociedade lida com episódios como o do bar carioca ou com propostas legislativas como a de Tábata Amaral. “A gente pode sim criticar a forma como o Estado nacional de Israel age e foi criado, mas sem precisar ser antissemita”, diz Schurster.
Ele cita exemplos de antissemitismo disfarçados de crítica: “eu encontrei uma imagem pichada na parede de Neukölln [bairro de Berlim] que é Bibi Netanyahu como vampiro. Mas vampiro era categoricamente uma das formas que os nazistas representavam os judeus. Então, isso não é uma crítica a Israel, é antissemitismo e isso não implica em ele [Netanyahu] não ser uma pessoa degradada que precisa sair do governo há muito tempo e que devia estar num tribunal penal internacional preso.”

Charge de Philippe Ruprecht, alemão que desenhava para o jornal semanário Der Stürmer. Agosto de 1934. A legenda da charge diz: “Do diabo para o mundo, ele constantemente atormenta e prejudica os povos”.

Pichação de Benjamin Netanyahu como vampiro numa parede do bairro Neukölln de Berlim. A foto foi feita por Schurster durante a pesquisa do livro.
O livro também argumenta que o trauma da Shoah (holocausto) tem sido mobilizado no debate de forma ambivalente. Em alguns momentos, funciona como advertência. Em outros, corre o risco de se converter em instrumento retórico para blindar o Estado de Israel de críticas legítimas. É nessa direção que o livro termina com uma entrevista com o pesquisador, ativista e especialista em direitos humanos Noam Cohen. Ele é israelense e pesquisa comunidades diaspóricas africanas no Atlântico e acompanha de perto os debates sobre sionismo, antissemitismo e direitos humanos em tempos de guerra. Schurster e Cohen conversam sobre o passado, o presente e o futuro.
“Eu espero que o livro ajude as pessoas a refletirem sobre temas socialmente vivos e sensíveis. Não ter medo de falar sobre temas difíceis, porque a questão não é falar sobre eles, a questão é como a gente vai falar. Podemos escolher um caminho vulgar e ruim, que ataca a democracia, ou não”, conclui Schurster.
O livro está em pré-venda no site da editora Fino Traço.
















