Selecionar 309 filmes de 3300 mil inscritos e exibí-los em uma semana para cerca de 50 mil pessoas não é uma tarefa das mais fáceis.

  01 DEZ. | QUINTA 

Por Júlia Veras – ex-aluna e correspondente do CCBA em Leipzig

Selecionar 309 filmes de 3300 mil inscritos e exibí-los em uma semana para cerca de 50 mil pessoas não é uma tarefa das mais fáceis. Além dos desafios inerentes a um festival de cinema tradicional, os realizadores do DOK Leipzig ainda têm a missão de harmonizar em seu programa documentários e filmes de animação. Curadora, jornalista e crítica, Grit Lemke é a responsável pela programação do evento, e concedeu uma entrevista para o CCBA.

Grit estudou antropologia cultural, literatura e etnologia e já trabalhou para festivais em Cottbus e Wiesbaden, na Alemanha; e em Sheffield, na Inglaterra. A sua  ligação com o DOK começou em 1991, enquanto ainda cursava o ensino superior, quando ela se ofereceu para trabalhar como freelancer. Ao longo dos anos, ela passou pelas mais variadas posições na produção do evento. É membro da curadoria desde 2004 e mais tarde se tornou coordenadora da programação. Na conversa a seguir, Grit explica como o festival se estabeleceu como um dos mais importantes do mundo na sua área, a ligação com a indústria cinematográfica, as relações com causas políticas e como é possível costurar dois gêneros tão diversos em uma mesma programação.

Como você vê o significado do Festival DOK Leipzig tanto no cenário internacional quanto para os países de língua alemã?

O DOK é o Festival de documentários mais velho do mundo, e ele foi – e ainda é – um dos mais significativos no cenário internacional. No tocante aos países de língua alemã, é o mais importante festival para documentários. No plano internacional, ele está junto de grandes nomes como Nyon, que acontece na Suíça, e o IDFA, na Holanda. A característica que faz o festival único é mesmo a junção de documentários e animação, e isso desde 1955.

Ele passou por muitas mudanças nas últimas edições?

Nesse ínterim, claro, ele esteve e está sujeito a muitas mudanças. Na última década, a mais marcante foi certamente o desenvolvimento de um importante posicionamento dentro do mercado e da indústria do cinema. Atualmente as novas tecnologias quebram as barreiras de gênero e têm influenciado o DOK. Ao mesmo tempo, festivais estão se tornando cada vez mais importantes, não só para a indústria, mas também para o público, como um lugar de entendimento, como um acelerador de discurso. Este fato é claramente perceptível, e é para ele que o festival tem direcionado seus esforços nos últimos anos. Há dois anos, a novidade em nosso programa é a fusão de um mesmo espaço para documentários e filmes de animação. E também o fato de que a noite de estréia está se tornando cada vez mais importante, o que acaba acontecendo com todo festival deste tamanho.

Quais os critérios estabelecidos pelo júri? Por quais pontos de vista os filmes são analisados?

Queremos filmes de arte e não de jornalismo. Informação não é um critério, tampouco escolhemos pelo conteúdo dos filmes. Um filme deve ter sempre algo a contar que vai além do seu sujeito real, como qualquer obra de arte. Além disso, as obras selecionadas devem ser apropriadas para cinema, ou seja, devem funcionar na tela grande.  Claro, esses são critérios que cada um de nós interpreta subjetivamente, não temos um catálogo objetivo de parâmetros com os quais podemos trabalhar. Em última análise, essa é uma questão de longas horas de discussão entre os integrantes do júri.

Na edição de 2016 foram selecionadas mais produções que são dirigidas por mulheres. Como o festival se posiciona em relação a isso?

Em primeiro lugar, selecionamos os filmes que acreditamos serem os melhores e mais importantes. Só depois dessa primeira avaliação, analisamos determinadas características, tais como gênero, países de origem, temas e linguagens cinematográficas. De uma forma geral, se trata de diversidade. Então, podemos dizer que não há cota para a seleção, mas uma clara consciência da importância desse tema. No ano passado houve um déficit, foram poucos os filmes assinados por mulheres. Já esse ano a oferta foi muito melhor. E uma vez que é desenvolvida uma consciência no processo de escolha,  você está apto para se envolver cada vez mais em temas e estilos narrativos que não sejam dominados apenas pelo sexo masculino. Às vezes, filmes que à primeira vista parecem menores, muito pessoais, se mostram capazes de transportar grandes questões sociais. Este ano, nas competições, quase metade dos filmes foram dirigidos por mulheres. Isso permite também concluir que uma nova geração está conquistando o mercado e os festivais, e que as mulheres obviamente exigem o seu espaço.

Qual o papel do DOK no cenário cinematográfico da Alemanha?

Um festival como DOK Leipzig atua principalmente como uma marca. Isso significa que distribuidores e colaboradores se orientam pelas escolhas da curadoria. Filmes com a marca “DOK Leipzig” encontram seu caminho para o público e obtêm, além disso, a atenção das pessoas do ramo e da imprensa. Hoje, fora dos grandes festivais, é difícil para os filmes terem acesso ao mercado.

O evento tem um importante significado político. Como se deu a escolha do moto deste ano, Desobediência?

O moto estava diretamente relacionado com a situação do país em foco nesta edição, a Turquia, e com a nossa retrospectiva dos documentários poloneses. No entanto, toda obra de arte é, em si, um ato de desobediência contra o Mainstream, o que no cinema é especialmente importante em um documentário. Neste sentido, entendemos a desobediência não só como política, mas também como uma espécie de percepção.

O Festival une em sua programação documentários e animação. Como vocês trabalham essa junção?

Nós tratamos ambos os gêneros apenas como filmes e não fazemos diferenciações na eleição ou curadoria entre documentário e animação. Para sistematizar o programa, procuramos temas que costurem os que os filmes têm em comum. É nisso que está o nosso encanto.

COBERTURA FESTIVAL

Realizado desde 1955 na cidade de Leipzig, na antiga Alemanha oriental, o festival de cinema DOK Leipzig teve um importante papel político durante a guerra fria, sendo um espaço de encontro entre os produtores culturais dos dois lados da Alemanhas – ocidental e oriental. 

 Além disso, o festival possibilitou que documentaristas do Vietnã e do Chile pudessem retratar o impacto da guerra do Vietnã e da ditadura de Pinochet na época em que elas aconteciam. Em 1995, o DOK Leipzig inovou com a categoria de animação, sendo o primeiro festival do mundo a premiar o melhor documentário em animação, promovendo um debate abrangente sobre o documentário como gênero, que na última década vem superando estética e artisticamente o formato didático e televisivo de sua origem.

Hoje, através de eventos paralelos às sessões, como debates, fóruns e a programação voltada para a indústria do documentário, o DOK Leipzig criou uma plataforma de networking para os realizadores e profissionais do cinema trocarem experiências e oportunidades. Acompanhe mais novidades sobre o DOK Leipzig 2016 no especial do CCBA dedicado ao festival com cobertura da jornalista Júlia Veras, ex-aluna do CCBA.

COBERTURA ESPECIAL CCBA – DOK LEIPZIG 2016