por Lorenna Rocha

O terceiro dia de Afrika Film Festival Köln foi um dia intenso com exibição dos longa-metragens Assarab (Ahmed Bouanani, 1979), Barni (Mohammed Sheikh), Truck Mama (Zipporah Nyaruri, 2025), Kwibuka, Se Souvenir (Jonas d’Adesk, 2025), El Sett (Marwan Hamed, 2025), um programa de curtas metragens da competição oficial e a peça AUF DEN SPUREN DER FAMILIE DIEK, de Abenaa Adomako. Com exceção da sessão do filme histórico restaurado, sobre o qual comentarei melhor num outro texto dedicado exclusivamente a essa faixa de programação do evento, todas as sessões tiveram uma forte presença do público, com participação ativa nos Q&A.
A cada dia, o Filmforum atrai um fluxo significativo de pessoas, especialmente nas sessões do fim da tarde para a noite. Com público e realizadores ocupando o mesmo espaço de forma tão fluída, os debates têm potencialidade de se estenderem pelo espaço de convivência, mas tenho uma leve impressão que a grade de horários acaba desfavorecendo um pouco, visto que os intervalos entre um filme e outro são bastante curtos. Neste texto, dedicamos especial atenção ao Truck Mama e Kwibuka, Se Souvenir.
★★★
Uma sessão lotada e com grande expectativa do público marcou a exibição de Truck Mama, que teve sua estreia mundial no IDFA – Festival Internacional de Filme Documental de Amsterdã. Este é o primeiro longa-metragem da documentarista queniana, realizadora dos curtas Maama Emeere (2007) e Zebu And The Photo Fish (2010). De forma íntima e observacional, ele registra o cotidiano de Evaline Mumbua Mutuku, uma mulher gestante e caminhoneira que divide sua atenção entre as estradas do Quênia, de Uganda e Burundi e o celular em que conversa com os amigos e familiares. No caminho, vamos acessando as facetas espontâneas, divertidas, ácidas e vulneráveis da personagem.

Evaline está no assento de motorista de um caminhão, com uma enorme barriga de gestação. Enquanto dirige, a voz em off confessa que abandonou os estudos logo cedo e, ao decidir ser caminhoneira, teria sido colocada em descrença por parte de sua família, formada majoritariamente por pessoas letradas. Após o salto temporal de dois anos, acompanhamos a personagem que precisa entrar numa rota de entrega de produtos que durará cerca de quinze dias. Sem tempo para grandes preparações, ela só pensa com quem deixará o seu bebê, temendo que ele passe a chamar a babá de “mãe” e esquecê-la.
O road movie faz um deslocamento ao não documentar com frequência a paisagem que circunda a viagem, fincando-se ao rosto e à voz de Evaline. Com a câmera nas mãos, Nyaruri busca pelos trejeitos e sentimentos de sua personagem, por suas flutuações de humor, seus desafios de trabalho e pela instabilidade da própria rota. A imagem chacoalha transmitindo as incongruências da estrada, os grandes buracos, que traduzem esteticamente, em certa medida, os altos e baixos pelos quais a caminhoneira atravessa emocionalmente.
Cercada por homens, Evaline impõe respeito de maneira bastante natural e não pensa duas vezes ao dar um corte ou até mesmo continuidade às piadinhas machistas e racistas que o ambiente suporta. Em uma das cenas, por exemplo, eles comentam entre si sobre homens sudaneses terem o pau grande. Sem necessidade de reparos representacionais, o olhar de Zipporah Nyaruri acolhe as dinâmicas de gênero e raça que o cercam, sem podar aquilo que invade os seus registros.
Sempre acompanhada do celular e da câmera, Evaline tem o primeiro como um tipo de conforto emocional, que ganha uma espécie de vida própria no filme, por justamente ser o ponto de conexão entre ela e a família e, especialmente, com o seu bebê. A câmera se aproxima, em detalhe, no momento em que ela vê as fotos deles juntos e a montagem conecta, por vezes, imagens da viagem ao do espaço da casa, reforçando essa duplicidade que à divide. A ferramenta de captação de vídeo, por sua vez, mesmo buscando se manter “invisível”, em um breve momento acaba sendo interpelado e se transformando, ao mesmo tempo, em objeto de proteção.
A questão das fronteiras entre os países africanos que estão dentro da rota de Evaline e o clima de violência em certas partes da estrada deixam, sob plano de fundo, um clima de desconfiança generalizada, que, se não é necessariamente explorado pelo documentário, acaba se tornando incontornável. Em meio a todos esses conflitos íntimos, a personagem acaba precisando lidar com negociações entre civis que se passam por militares, com agentes policiais que, outrora, ameaçam prendê-la, e com uma peça do caminhão que quebrou e impactou no seu trabalho, de modo que ela começa a retornar para casa. É em parte dessas situações que a câmera opera duplamente, também estando à disposição como um objeto de segurança. Após enfrentar a polícia local, por uma única vez, o rosto de Zipporah aparece, do assento de passageiro, como num gesto de cumplicidade diante do ocorrido.
Durante a tentativa de reparo do caminhão, aliás, é curioso como o filme assume um certo olhar de deslumbre e desejo, se deixando levar pela dança do trabalho de Evaline, que busca resolver o problema. No entorno, os caras acompanham boa parte da ação de mãos atadas, enquanto a câmera captura imagens dela ora deitada no chão, ora em cima do caminhão buscando uma ferramenta, ora usando toda a força de seu corpo para usá-la na peça que quebrou.
Com imagens singulares, infelizmente, o longa-metragem exagera em sua sonoplastia reiterativa que, para nossa sorte, não aparece em muitos momentos. As músicas acabam reforçando os estados emocionais de Evaline Mumbua Mutuku, como se a força do que está na tela não fosse capaz de transmiti-los à audiência. Por sua vez, a forma de enquadrar o longo caminhão amarelo em que Evaline trabalha, com o nome da empresa Smile Africa, deixa no ar um comentário irônico em meio a um contexto de precarização do trabalho e o desafio da personagem em construir sua própria família. Em Truck Mama, o trabalho e a maternidade aparecem sempre como um duplo lugar, não apenas no sentido de uma sobreposição ou intersecção entre ambos, mas uma cisão, aquilo que quebra por dentro.
★★★
Kwibuka, Se Souvenir começa de forma acelerada, querendo demarcar sua questão logo de saída. No longa-metragem, nada parece ter tempo para uma construção efetiva, assim como a partida de basquete que rapidamente introduz a personagem principal: Lia Tessier (Sonia Rolland), ruandense baseada na Bélgica, é convidada pelo treinador africano para competir pela sua nação num torneio continental. Sem grandes conflitos iniciais, ela aceita o convite, mas sua chegada a Ruanda é marcada por desconexões.
O filme insiste na inadequação de Lia no território. Vira e mexe ela está dizendo que não sabe falar a língua local ou alguma criança a chama por Muzugu [branca ou estrangeira]. Enquanto as jogadoras celebram cantando canções de seu país ao ganhar um jogo, Lia aparece com o rosto confuso, como quem não sabe reagir diante da cena. No decorrer da história, descobriremos que ela é uma das sobreviventes do Genocídio de Ruanda de 1994, e que teria sido enviada pelo pai, Christian Tessier (Jean-Hugues Anglade), para morar na Bélgica.
Uma das reviravoltas principais de Kwibuka, Se Souvenir é quando Lia descobre que só sobreviveu porque o pai a escolheu, em detrimento da vida da mãe e do irmão. A situação, assim como todos os outros conflitos, são resolvidos num piscar de olhos. Literal e repetitivo, o roteiro subestima a espectadora ou busca certificar que sua mensagem está sendo enviada de forma “correta”, como na cena em que, após uma visita num memorial histórico de Ruanda, dentro da igreja, em que vemos ossos e roupas dos mortos, uma performance de dança acontece no lado de fora da instituição. O pai de Lia traduz tudo que está sendo dito ali, uma forma de tradução também para nós.
De certa forma, é interessante como Kwibuka, Se Souvenir se recusa a iniciar sua viagem de volta para casa por meio de um olhar deslumbrado, de encontro com as raízes, ainda que a jornada de Lia acabe levando-a para esse lugar de reconexão e compreensão de seu passado. A dimensão documental que o filme abriga talvez justifique essa fricção interna a ele, o qual fora realizado 80% com pessoas locais, segundo compartilhado por Jonas d’Adesk durante o Q&A. O diretor afirmou ter retornado ao seu país de origem por ocasião da gravação do longa-metragem.
As sequências dentro do museu são os momentos mais frontais em que se lida com a matéria do trauma. Imagens secas, deslocadas do arranjo publicitário armado pelo filme, elas contrastam significativamente ao modo como Ruanda é mostrada: com ênfase às suas belas paisagens, aos animais e aos rostos das pessoas locais, que devolvem o olhar para a câmera. Buscando ir nos lugares de memória para o país e também para a história da família de Lia, o Kwibuka, Se Souvenir constrói uma homeland tour, que poderia acabar criando uma certa ambiguidade imagética, justificada pela adesão do filme ao olhar estrangeiro da própria protagonista.
Carregando a palavra souvenir no título, o longa-metragem parece nos oferecer uma pista: no francês, o termo pode significar memória e objeto de turismo. A aceleração da trama, sua linguagem publicitária e a transformação da narrativa numa reconstituição familiar entre pai, um homem branco, e filha, uma mulher mestiça, vai afastando a ambivalência dessas imagens e se tornando, nada muito mais que isso: a reencenação de um olhar marcado pelo imaginário colonial, envelopado por uma desejada história de retorno para casa e de reconhecimento da violência de um acontecimento histórico de Ruanda. Isto é, uma lembrancinha.
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