por Lorenna Rocha

Durante o 23º Afrika Film Festival Köln (AFFK), pude conversar com Fradique, cineasta e curador angolano que integra a equipe de programação do evento desde 2023. Sua primeira vez no festival foi com o longa-metragem Independência (2015), mas naquele momento não pôde viajar até Colônia para acompanhar a exibição de seu filme. Mais tarde, exibiu Ar Condicionado (2020), quando se surpreendeu com a rede comunitária africana e afro-diaspórica que se formava na cidade durante o evento. Logo depois, tornou-se patrono do festival, júri e, no ano seguinte, passou a integrar a comissão de seleção, de onde tem visto, a cada ano, o AFFK ganhar novos contornos.

Nesta entrevista, Fradique compartilha suas percepções sobre a prática da curadoria em cinema, questões políticas e de produção que envolvem o cinema africano, assim como divide com o público suas memórias em torno do festival. Ele também destaca a importância da ocupação de espaços no cinema, campo que é percebido por ele como algo vivo, interconectado e um lugar infinito para estabelecer os mais diferentes tipos de conversa.

Lorenna Rocha: Me conta, como você chegou ao AFFK?

Fradique: A primeira vez que vim ao AFFK foi em 2021, com Ar Condicionado. Antes disso, já havia exibido Independência, só que não deu para vir naquele momento. Isso era 2018 ou 2019. Fiquei muito impactado enquanto cineasta, não só por todos os filmes presentes, mas com os cineastas, a comunidade que o festival tinha, este que existe desde 1992. A hospitalidade, os encontros, as refeições que fazíamos juntos. E depois essa coisa rara que acho que o AFFK tem dos filmes passarem apenas uma vez. Não existe mercado ou indústria aqui. Os cineastas, quando vêm, ficam pelo menos durante cinco dias. Então nós temos a oportunidade de ver os filmes uns dos outros. Muitas vezes isso não é possível em outros festivais. Após a exibição de Ar Condicionado, me tornei patrono do festival da edição, que é uma espécie de padrinho, que normalmente faz um discurso no dia de abertura, alguém que já possui algum tipo de relação com o evento. É uma espécie de embaixador naquele ano. Depois, retornei como júri, ao lado de Jaqueline Nsiah [curadora de Gana/Alemanha] e Amil Shivji [realizador da Tanzânia]. Foi nesse ano que começamos a conversar com Sebastian Fischer [diretor do festival] sobre a programação.

Até então, não havia faixas que distinguiam a exibição dos filmes, era um festival completamente aberto e só havia prêmios do público. Nós achávamos que era importante criar faixas de programação e haver um júri. Tanto que no primeiro ano acumulamos ambas as funções, o que não funciona muito bem, porque, além de cansativo, é estranho quem seleciona premiar os filmes em competição. Então, nos anos seguintes, começamos a vir só como curadores. Nesse ano, o Amil não pôde fazer o festival, então a Roonie [Vitalia] entrou na equipe curatorial. Tem sido bem interessante, pois, a partir do momento que criamos a Mostra Competitiva, e outras seções, as premiações foram se construindo melhor e isso facilitou dialogarmos com os patrocinadores.

Desde que comecei a participar da curadoria, sinto que o AFFK começou a dar maior dimensão aos países que falam português em África. Antigamente, a programação era ocupada por filmes de países francófonos, anglófonos e East Africa. Todos os anos, agora, há um projeto ou de Cabo Verde, ou de Angola, ou de Moçambique, e até mais de um país ao mesmo tempo. O apoio do Instituto Camões também foi muito importante para o crescimento dessa presença, pois eles apoiam a vinda dos cineastas de países de língua portuguesa, o que acaba sendo uma forma de envolver as instituições locais com o evento. De fato, há essa coisa do festival de manter uma certa comunidade. E sempre foi assim: antes de começar a vir, houve outros cineastas e outros profissionais que participaram do festival durante quase dez anos. Isso faz com que o evento torne-se um lugar de formação, funciona como um ambiente para criar laços com as pessoas, às quais, muito provavelmente, você está conhecendo pela primeira vez, ou que vieram pela primeira vez, mas que poderão ocupar outras funções numa próxima edição. Isso é uma das coisas que mais me atraem. Gosto de festivais, sejam eles grandes ou pequenos, que nós conseguimos sentir algum senso de comunidade.

O AFFK cresceu bastante desde a primeira vez que estive aqui. Antes, o público era muito alemão, mas hoje em dia percebemos que há uma participação significativa da diáspora africana que está em Colônia e nas cidades do entorno. Isso é muito bom, porque é um festival que está sendo feito para a população da diáspora vive aqui, nos possibilitando conhecer essas pessoas que estão em Colônia. No ano que vem, vou estar rodando meu próximo filme, então não poderei participar do processo de curadoria. Mas já falei com Sebastian para ficar responsável pela Mostra Retrospectiva! É uma faixa de programação menor, com três a cinco filmes. Por dois anos consecutivos, o AFFK ganhou o prêmio de Melhor Festival de Cinema Africano da Europa pelo European Enterprise Awards. Isso é algo que me enche de orgulho, pois existem muitos festivais de cinema africano neste continente, até brinco às vezes que tem mais do que em África! Já estive em vários e sei que não é tudo a mesma coisa, mas, muitas vezes, eles estão ali só para cumprir a praxe, meio para dizer que “temos um evento para mostrar aqueles filmes que todo mundo conhece”. Mas, aqui não.

Na programação, da mesma forma que há um filme africano que teve grande destaque em Cannes, há aquele que terá sua estreia internacional pela primeira vez. É possível conhecer um cineasta que está exibindo seu primeiro curta, como outro cineasta que já fez quatro, cinco filmes. Gosto dessa conexão, dessa proximidade. Conheci várias pessoas do cinema africano aqui, fiz amigos, parcerias. É um algo bastante comunitário, até difícil de explicar. Isso se traduz, por exemplo, com a comida. É um aspecto muito importante para o festival ser como ele é: sempre há refeições disponíveis para os convidados e a hora do alimento torna-se uma forma de criar proximidade. É uma das coisas que eu mais gosto. Não tenho que me preocupar onde vou comer nessa cidade. E sei que vou comer e conversar com alguém.

Lorenna Rocha: Você poderia explicar melhor sobre os filmes em exibição que são realizados em contextos afro-diaspóricos? Por conta do nome do festival, pensei inicialmente que o festival só recebia filmes produzidos no continente africano.

Fradique: Já tivemos muitos debates se deveríamos abrir ou não, mas a mostra competitiva é restrita à geografia do continente. Para os filmes em competição, o diretor ou diretora devem ser africanos. Em outras faixas de programação, isso é mais aberto, podem ser cineastas da diáspora. Houve alguns anos, por exemplo, que houve a presença do cinema negro e brasileiro, exibimos um filme do Joel Zito Araújo, que veio como convidado. Já exibimos também um curta do Gabriel Martins e abrimos uma edição com Marte Um (2022). Ou seja, o filme brasileiro fez parte da cerimônia de abertura. Como também, num outro ano, houve um filme haitiano abrindo a programação do festival.

É um debate geopolítico, não é? Torna-se importante a competição ser mais restrita. Mas também acredito que é importante abranger, só não sei se estamos ativamente à procura disso. Alguns filmes não chegam até nós, mas pode ser por conta do nome do evento mesmo. Mas, reforço, podem enviar seus filmes! Particularmente, acho que deveria ter cineastas não africanos na competição, pois há realizadores que podem ser considerados como aliados. Mas acho que isso tem bastante a ver com a forma que cresci. Angola teve parcerias muito fortes com Cuba e outros países. Se há algum filme com peso e força, talvez fosse importante colocá-lo para conversar, até porque a grade de programação é muito grande, há muitas janelas de exibição.

Lorenna Rocha: Não percebi uma presença significativa da imprensa no AFFK. Qual a relação que vocês estabelecem com a crítica de cinema e com a produção jornalística de Colônia?

Fradique: Nós gostaríamos de trazer jornalistas ou críticos de cinema africano e cinema negro para o festival. Sentimos, de maneira geral, que os filmes ficam por aqui e quase nada se fala sobre eles ou sobre o que aconteceu durante os dias do evento. Nós precisamos das perguntas difíceis, do debate, de criar formas de conversa, porque se não as coisas ficam só entre nós. Acho muito importante haver essa criação de pensamento. Nós já temos a experiência de convidar curadores que estão no início de carreira para construir o festival com a gente, mas precisamos, assim como fazemos com os cineastas, trazer jornalistas e críticos de cinema.

Tiveram alguns anos que houve presença de rádios, televisão e jornal locais, mas é muito raro. E é algo alarmante e me dá um pouco de medo, pois não temos ninguém fazendo memória, arquivo, testemunho da vida do festival. Todo ano há algum filme que as pessoas não gostam, se revoltam ou gostam muito. Teve uma edição, por exemplo, que ficou muito marcado um conflito, uma divisão, dentro da própria comunidade, quando exibimos um longa-metragem da Etiópia e da Somália. Havia um conflito específico naquele ano, então, a sessão foi tomada por uma tensão. E não há nenhum registro sobre isso, só o testemunho de quem esteve naquele dia. Ninguém sabe de nada ou só temos a voz do festival sobre o festival. Isso não funciona.

Até uns anos atrás, todos os filmes eram exibidos com legendas em alemão, inglês e francês. Era uma confusão! Mas sempre houve essa preocupação, da tradução, do Q&A. Agora sempre tem tradução simultânea e isso é muito legal, pois temos a oportunidade de conversar com todos os realizadores e todo mundo vai ouvir a língua que se sentir mais confortável dentro da sala de cinema. Nós abarcamos todo tipo de produção no festival. Conseguimos fazer uma seleção que abraça essa diversidade, de modo que as conversas se tornam melhores. Os filmes têm dimensões diferentes e isso provoca mais conversa, mas não temos ninguém para fazer esse registro. Por exemplo, os painéis. Este ano gravamos todos em áudio, mas foi algo de última hora. Se não nos atentamos para gravar, isso se preserva apenas com quem esteve lá. Até eu mesmo, quando estou na mediação, me esqueço da conversa. É muito importante termos esses registros. Vejo o cinema como um lugar que todo mundo faz parte. Do maquiador ao crítico de cinema, não estamos em mundos separados, está tudo ligado.

Lorenna Rocha: Aproveitando que estamos falando sobre os painéis, gostaria de retomar algumas questões que vocês apresentaram na mesa Who Heals When We Film?, que buscou apresentar a temática do festival este ano. No Brasil, e na arte contemporânea global, eu diria, o debate a partir da ideia de “cura” tem sido recorrente nos últimos anos. Sinto que isso, muitas vezes, se apresenta de forma até mesmo de modo mercadológico e publicitário, como forma de suprimir, a grosso modo, um passado histórico que convive ativamente entre nós. Que envolve todas as nossas relações.

Entretanto, assistindo aos filmes em exibição, percebi essa “cura” como uma ferida aberta, uma espécie de travessia. A alegoria que faço aqui – essa ferida que vai descarnar, que temos que cuidar, que piora e melhora, ao mesmo tempo – é para tentar traduzir como tenho percebido a programação: há uma dor latente, um senso de urgência, que nos convoca a atravessar por uma energia dura, mesmo nas narrativas mais otimistas e celebrativas. Seria ótimo te ouvir sobre a temática, pois acredito que isso pode nos ajudar, no Brasil, a pensar sobre essas imagens.

Fradique: Vou retomar um pouco do que falei ontem. Primeiramente, sou um cineasta, mas, em determinado momento da minha vida, percebi que não ia conseguir fazer filmes o tempo todo, então comecei a pensar o que poderia fazer dentro do cinema, em algo que pudesse continuar contribuindo com ele. Na época, em Angola, criei um coletivo e uma produtora, Geração 80. Já não estou mais lá, mas fizemos esse espaço com a intenção de promover formação, difusão e sessões de cinema. Depois, a curadoria começou a ganhar destaque, porque senti que o cinema é um pouco como os livros: não fazia sentido eu vender livros quando as pessoas ainda necessitam aprender a ler e escrever. Não estou dizendo que as pessoas têm que aprender a ver filmes, mas elas precisam ter contato com todo tipo de cinema.

Nós, enquanto cineastas e pessoas que trabalham no cinema, julgamos muito rápido o público: “ah, não, o público não entende este filme” ou “este filme é para aquele público, já aquele é para outro público”. E isso é uma das coisas que mais detesto fazer, dizer, “este filme não serve para estas pessoas”. Definitivamente, não acredito nisso. Todos os filmes servem para todas as pessoas e, simplesmente, nós temos que entender qual é o tipo de cinema, qual é o contexto que envolve nossa audiência. Foi a partir desse lugar que me interessei pelo trabalho da curadoria, da seleção de filmes, acreditando que os filmes servem para todo mundo, mas que, para isso, é preciso criar uma cultura do cinema, dos filmes que vamos ver.

Era importante para mim ocupar esse lugar enquanto cineasta, principalmente em festivais fora do continente africano. Já participei de festivais e laboratórios de projetos dentro do continente africano, mas fora dele a discussão é sempre a mesma: “quem está escolhendo os filmes africanos para esses lugares?” Muitas vezes, e até hoje, não são pessoas do continente, são pessoas que não têm nenhuma relação ou conexão com o território e que possuem um olhar marcadamente estrangeiro. A partir disso comecei a me deslocar para conseguir ocupar mais esse espaço, não só de festivais de cinema africano, mas também internacionais, como Locarno, que atualmente colaboro no Open Doors, ou na Berlinale, que já trabalhei na seleção da Panorama. Ou seja, não são festivais com uma “seção destinada ao cinema africano”, que não ocupo apenas para “trazer filmes africanos”, mas para apresentar a perspectiva de um curador de cinema africano.

Acho que é mais proveitoso, principalmente dentro do cinema africano, ver e ouvir quais são esses filmes, o que está para ser lançado naquele ano, o que foi produzido no último ano e a partir daí entender o que nos toca mais, se há ou não um fio condutor dentro dessa produção africana que, apesar de haver vários lançamentos por ano, não é um cinema tão vasto. Nas edições do AFFK, nunca houve um momento em que a gente não tivesse identificado algum ponto em comum entre os filmes. A cada ano, sempre encontramos alguma coisa. Não sei se é coincidência ou se é o nosso olhar já treinado para isso. Mas, este ano, duas coisas nos chamou muita atenção: a música e o que estamos chamando de “cura”.

Primeiro, há muitos filmes com música, num lugar quase musical. A música não ocupa só a banda sonora, ou como um respiro, mas a própria narrativa que está sendo contada, seja em filmes de ficção ou documentais. Segundo, percebemos que essa “cura” acontecia com personagens em todos os filmes. E que esse processo também se dava através da música. Por isso construímos nosso texto de apresentação e da competitiva a partir dessa chave de leitura. Esses processos curativos acontecem através da música, da religião, da família, do próprio país ou governo, das pessoas consigo mesmas. Isso nos tocou muito, é o campo de força deste ano.

Lorenna Rocha: Nesses últimos, como você tem observado os cinemas africanos? O que tem te chamado atenção e o que você compartilharia com o público brasileiro, para ampliar nossa percepção e aguçar a curiosidade em torno dessas cinematografias?

Fradique: O cinema africano são 54 países. Nós, da curadoria, tentamos apresentar uma diversidade territorial, porque é muito fácil dentro de um festival de cinema africano haver uma representação maior de cinema norte-africano e do cinema nigeriano, pois são os lugares que mais produzem dentro do continente. E o cinema norte-africano é o que tem mais presença em festivais internacionais. Nós buscamos ter uma representatividade à nível dos países africanos, afinal, são realidades diferentes entre Nigéria, Uganda, Angola ou África do Sul. Mas também à nível dos diretores. É muito fácil montar uma programação só com diretores homens, por exemplo. Território, gênero e modos de produção são fatores importantes quando estamos escolhendo os filmes.

A maneira como os filmes são realizados é algo crucial, pois queremos ter produções africanas que são coproduções internacionais grandes, mas também uma produção local, feita com muito esforço e apoio comunitário. Historicamente, o cinema africano sempre foi feito com muitas limitações de orçamento, recursos técnicos e até mesmo de profissionais especializados, mas é um cinema que não deixou de ser feito apesar disso. O que se transformou na força própria que ele traz consigo. Mesmo depois de alguns cineastas e algumas regiões se destacarem por suas cinematografias, tendo capacidade de investir no cinema que está sendo feito ali, acredito que essa força continua presente.

Retomando a sua fala sobre o processo de cura como algo que atravessa, me faz pensar como essa forma “atravessada” está presente nessas cinematografias. Seja porque não dava para a pessoa ir de um lugar para o outro e criar uma nova coisa. Ou porque ela não poderia sair daquele país, daquela cidade, daquela família ou condição social e reimaginar uma outra coisa. Então, parte desses processos foram quase obrigatoriamente feitos “atravessando”. E, quando se faz algo dessa forma, algo singular se produz. Nós temos que saber medir exatamente o momento e a forma, como dizia a Stella Nyanzi [ativista ugandense documentada em The Woman Who Poked The Leopard (2025)]: se tiver que falar forte, falar grosso e enfrentar, eu falo; outras vezes, se tiver que falar mais suave, eu falo.

Ocupar espaço para mim é uma das coisas que vejo mais força. O cinema é como uma ocupação de espaço. Estamos aqui, em Colônia, com pessoas que vieram do continente, da diáspora e que vivem em Colônia, fazendo uma ocupação que não se dá de forma barulhenta, mas regularmente. O festival está acontecendo aqui desde 1992 e é uma luta para o Sebastian realizá-lo. Todos os anos ele precisa lutar, pois nunca está garantido orçamento para o festival. Essa regularidade é o que traz a força para o festival em si. Então, se levamos isso para as histórias que queremos contar, nós vamos saber dosar como Stella dizia: hoje a gente vai sentar aqui e tomar café da manhã, pois este ato em si pode ser revolucionário, considerando a situação política que ela está vivendo em Uganda, junto aos estudantes, militantes e ativistas sentados com ela.

Acredito que precisamos de mais histórias assim: que contem histórias de pessoas tomando café da manhã. E quando nós vermos essas histórias e essas pessoas, nós vamos perceber que nunca teríamos imaginado ver uma histórias dessas nesse país, contada por esse tipo de cineasta. E, por fim, vamos reconhecer que há ali algo interessante, há uma boa maneira de estar no mundo. Essa proposta não é minha, mas da Stella, uma pessoa com quem Patiente [Nitumwesiga] teve o privilégio de fazer um filme incrível. É quando você está ali no cinema e isso te inspira a querer contar histórias, te desperta, com uma frase de um personagem, a querer trabalhar no cinema.