por Lorenna Rocha
Tukki – Des Racines Au Bayou (Alune Wade e Vincent Le Gal, 2025) e Notes From The Underground (Adrian Van Wyk e Chris Kets, 2025) são documentários musicais que marcaram a programação do Afrika Film Festival Köln no último domingo. A sessão de Tukki foi iniciada com pocket show de Alune Wade, emocionando a plateia, que vibrou e aplaudiu ao fim de cada música. O filme codirigido pelo artista acompanha a gravação de seu primeiro disco, Sultan (2022), entre Nova Orleans, Senegal, Gana e Nigéria. Já durante a noite, o público lotou a sala do Rex Kino Köln para assistir ao longa-metragem sulafricano, que entrelaça a cena do hip-hop em Johanesburgo às lutas políticas contra o Apartheid. Enquanto o primeiro está em busca das raízes negras do jazz numa perspectiva pan-africanista, o segundo oferece uma visão intergeracional e deslocada de olhares míticos sobre o passado.
Neste dia, também foram exibidos os filmes DAS GEHEIMNIS DER GESTOHLENEN MASKE (Nancy Mac Granaky-Quaye, 2026), Les Baronnes (Mokhtaria Badaoui e Nabil Ben Yadir) e o programa de curtas QUEER VOICES I, esta última com ingressos esgotados. O público acompanhou com bastante engajamento a sessão, com destaque ao TAXI MOTO (Gäel Kamilindi, 2026), em que o diretor também atua. O seu personagem busca fazer um filme de amor. De forma metalinguística, ele reflete sobre os procedimentos de realização cinematográfica, revelando, ao fim, uma história de profundo desejo. Antes do curta-metragem, que marca sua estreia solo na direção de cinema, Gäel Kamilindi codirigiu Les Resquilleurs (2024), ao lado de Ozal Emier. TAXI MOTO foi o filme de abertura da 23ª edição do Afrika Film Festival Köln, ao lado de Memory Of Princess Mumbi (Shandra Apondi, 2025).
★★★
Alune Wade é um músico de jazz senegalês que busca perspectivar a história do ritmo a partir da tradição cultural africana e afro-diaspórica. Por meio de entrevistas com musicistas, instrumentistas e intelectuais acadêmicos, assim como registros de shows e do processo de criação do álbum, Tukki – Des Racines Au Bayou possui um procedimento fílmico bem convencional e recorrente de documentários musicais contemporâneos. Prometendo fazer do jazz uma matéria de realização fílmica, o tempero da improvisação passa bem longe. Num evidente esforço de “retorno às raízes”, usa o seu material de arquivo como mera ilustração, mas guarda em si uma série de depoimentos que dão textura e singularidade ao filme. O seu esforço maior talvez esteja justamente no trânsito entre os territórios e, especialmente, na escuta ativa de seus entrevistados, que fazem ver uma história incontornavelmente negra do jazz.
★★★
Enquanto o filme anterior esforçava-se em fazer uma religação que desenhasse um mapa negro sobre o jazz, Notes From The Underground, filme de Adrian Van Wyk e Chris Kets faz do sample, do scratch e da mixagem sua religião. Isaac Mutant, um dos artistas das primeiras gerações do hip-hop na Cidade do Cabo, desloca-se da costa marítima que banha a sua casa para o quarto de sua filha Lyrix, jovem artista visual e M. A garota escreve seus versos, declama-os para a câmera e recebe uma série de conselhos do pai sobre criatividade e como não se submeter à indústria fonográfica. É a partir desse ambiente íntimo, das histórias particulares, que o longa-metragem constrói uma visão coletiva sobre o movimento cultural e político do hip-hop na África do Sul, ressaltando sua importância para a resistência contra o Apartheid e outras formas de subjugação no território orquestradas pela violência estatal e colonialista.
O desenraizamento e a multiplicidade racial conduzem a narrativa que busca documentar e promover uma perspectiva crítica sobre o impacto das políticas de limpeza étnica no Distrito 6. Imagens de arquivo da cena do hip-hop são utilizadas de forma inventiva, sobrepondo os tempos históricos e criando conexões entre diferentes ritmos. A justaposição de sonoridades locais, matérias de jornal, cenas dos bailes e reportagens da época evidenciam como as experiências culturais foram fundamentais para a resistência e sobrevivência de famílias, moradores locais e imigrantes que ocupavam a cidade naquele momento. A remoção tinha como objetivo a construção de um grande empreendimento de moradia para a população branca. Das residências restam apenas ruínas de um projeto mal sucedido.
A condição crioula da Cidade do Cabo contamina propositivamente a feitura de Notes From The Underground. As mudanças constantes da materialidade fílmica reelaboram a vivacidade presente nas imagens de arquivo com que trabalha, conectadas e justapostas aos depoimentos de atores sociais de diferentes gerações, entre eles, artistas, poetas, músicos e fotógrafos. Em uma de suas sequências mais poderosas, um b-boy dança sob um chão de terra batida, enquanto a banda sonora sobrepõe versos poéticos e sons de berimbau. De Nelson Mandela à Lyrix, o encontro intergeracional e a dimensão testemunhal da cena do hip-hop fazem do filme um novo arquivo, uma prática de história oral, um documento para o futuro.
Ao mesmo tempo, o longa-metragem se esforça na tentativa de atualizar seu debate de forma contemporânea. Ao escolher fazê-lo de forma quase auto enunciativa e já ao final do filme, com breves blocos temáticos que apresentam um ponto de vista queer e das mulheres, o filme não parece propor uma visão interseccional, mas sim temer ser acusado de um possível viés masculino, que poderia, para alguns, ser dito como excludente. As presenças ativas de Lyrix e MC Kim-Possible acontecem de forma muito mais fluída e criativa, sem recorrer a uma coreografia gramatical de nossos tempos.
Às vezes parecendo estar brigando dentro de si, Notes From The Underground estranhamente busca condicionar os registros para algum tipo de unificação, como se eles produzissem, ao estarem juntos, um corpo único sobre a luta que documenta. Mas sua materialidade instável, sua criolagem, perfura a simples ideia de retomar as raízes e origens de uma história, esta marcadamente partida e fragmentada, impossível de se fazer homogênea.







