{"id":75,"date":"2020-03-02T20:18:22","date_gmt":"2020-03-02T23:18:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/?p=75"},"modified":"2020-03-02T20:28:20","modified_gmt":"2020-03-02T23:28:20","slug":"berlinale-70-uma-edicao-corajosa-em-meio-a-intemperies","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/2020\/03\/02\/berlinale-70-uma-edicao-corajosa-em-meio-a-intemperies\/","title":{"rendered":"Berlinale 70: uma edi\u00e7\u00e3o corajosa em meio a intemp\u00e9ries"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"420\" src=\"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/bild_gross_5969-750x420.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-82\" srcset=\"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/bild_gross_5969-750x420.jpg 750w, http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/bild_gross_5969-750x420-300x168.jpg 300w, http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/bild_gross_5969-750x420-676x379.jpg 676w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption>Days (Tsai Ming-Liang, 2020)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A 70\u00aa Berlinale iniciou em meio a intemp\u00e9ries de v\u00e1rios n\u00edveis, do temor sobre o coronav\u00edrus (o j\u00fari do pr\u00eamio Teddy, por exemplo, teve ausente um de seus jurados, chin\u00eas, ficando desfalcado) a mudan\u00e7as de infraestrutura causadas por revis\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias e reformas na regi\u00e3o da Potsdamer Platz, base do festival. Na quarta antes da abertura, um atentado da extrema direita em Hanau, pr\u00f3xima a Frankfurt, retomou fantasmas. Semanas antes, a revela\u00e7\u00e3o de que Alfred Bauer, importante ex-diretor j\u00e1 falecido do festival, fora ligado ao nazismo, p\u00f4s o festival em controverso retrospecto. O pr\u00eamio que h\u00e1 33 anos levava seu nome foi cancelado pelos novos diretores, Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conversa com cr\u00edticos alem\u00e3es, para mim ficou n\u00edtida certa desconfian\u00e7a, por parte da imprensa local, diante dos rumos que os novos diretores viriam dar ao festival. Rissenbeek, holandesa, vinha h\u00e1 alguns anos \u00e0 frente da ag\u00eancia alem\u00e3 German Films, assumindo a dire\u00e7\u00e3o executiva da Berlinale. Chatrian, italiano, h\u00e1 seis dirigia o Festival de Locarno, convidado para a dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica em Berlim. A lista de programa\u00e7\u00e3o divulgada j\u00e1 deixava claro que certo capital simb\u00f3lico de mercado por aqui, neste festival de maior magnitude que o su\u00ed\u00e7o, somava-se a certo prest\u00edgio cultivado por Chatrian junto a alguns setores art\u00edsticos. Ap\u00f3s os dez dias de Berlinale, ficou evidente que o perfil de Locarno, que vinha se firmando como festival atento, arriscado e arrojado em termos curatoriais, ganhou readequa\u00e7\u00e3o na infraestrutura maior de Berlim \u2013 ainda que esta mesma tenha sido reduzida, de cerca de 400 para 350 filmes. Considerada por alguns uma Berlinale em tom menor, em geral o festival foi aclamado pela cr\u00edtica internacional por uma retomada de relev\u00e2ncia art\u00edstica, uma amostragem de personalidade curatorial e a busca por um fil\u00e3o pr\u00f3prio que seja capaz de diferenciar Berlim de outros grandes festivais, como Cannes, Sundance e Veneza.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto est\u00e1 evidente em certo balan\u00e7o, na competi\u00e7\u00e3o oficial, que fez desta edi\u00e7\u00e3o a mais instigante desde que acompanho as listas da Berlinale: balan\u00e7o entre certos grandes realizadores de propostas particularmente inventivas, lim\u00edtrofes, entre cinema de mercado e cinemas pequenos (Tsai Ming-Liang, Hong Sang-soo); apostas em nomes n\u00e3o t\u00e3o capitalizados de pesquisa pr\u00f3pria fresca, saborosa, por vezes surpreendente (como Kelly Reichardt e a parceria entre Caetano Gotardo e Marco Dutra); e um tom pol\u00edtico mais direto que aparece em formas mais convencionais de coment\u00e1rio (Gustave Kervern e Beno\u00eet Del\u00e9pine ou o Urso de Ouro Mohammad Rasoulof), tra\u00e7o das \u00faltimas sele\u00e7\u00f5es que ganhou continuidade. Em linhas gerais, uma sele\u00e7\u00e3o de corpo, em que os piores filmes parecem compor mais um desejo de diversidade e cor do que indicam falta de f\u00f4lego. \u00c9 muito saud\u00e1vel que os p\u00fablicos possam conhecer formas t\u00e3o diferentes de se fazer cinema numa \u00fanica se\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de todo modo prestigiosa junto \u00e0s multid\u00f5es e atrai milhares de pessoas aos pal\u00e1cios do festival.<\/p>\n\n\n\n<p>Para reiterar seu desejo por arrojo e alocar mais filmes envisionados por seu projeto de curadoria, Chatrian criou a se\u00e7\u00e3o Encounters, em que 15 filmes em geral um pouco mais idiossincr\u00e1ticos se reuniram como numa esp\u00e9cie de segunda competi\u00e7\u00e3o para cinemas cujos tra\u00e7os art\u00edsticos s\u00e3o imponentes sem que deixem de investir numa experi\u00eancia forte de sala de cinema. Sendo assim, a Forum, em sua 50\u00aa edi\u00e7\u00e3o, ficou marcada por um ar independente ainda mais arejado, sendo que ao fim de 10 dias fica claro que aqui a busca por cinemas diferentes ganha agora um tom mais distinto de liberdade, de certo descompromisso com o espet\u00e1culo das vogas. Do contr\u00e1rio, h\u00e1 uma cren\u00e7a de que o fazer art\u00edstico n\u00e3o \u00e9 dirigido por laborat\u00f3rios e mercados, mas por projetos de pensamento essencialmente particulares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma ideia francamente afirmada com a retomada da programa\u00e7\u00e3o da primeira Forum (cujo nome completo \u00e9 Forum Internacional do Novo Cinema), em 1971, como comemora\u00e7\u00e3o do cinquenten\u00e1rio. Era uma sele\u00e7\u00e3o particularmente incr\u00edvel, de forte inflex\u00e3o pol\u00edtica, com filmes de Chris Marker a Nagisa Oshima, de Med Hondo a Theo Angelopoulus, em contexto de Guerra Fria cujos temas e formas ressoam nas guerras ideol\u00f3gicas atuais, e da\u00ed sua revis\u00e3o ser t\u00e3o oportuna. Sob a dire\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m renovada de Cristina Nord, eis a Forum fazendo um grande trabalho de retomada e reafirma\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, dando \u00e0 Berlinale um ar de constela\u00e7\u00e3o. As tantas se\u00e7\u00f5es do festival (Panorama, Generation, Berlinale Shorts, Forum Expanded), quase todas passando por reformula\u00e7\u00f5es, parecem estar dirigindo a aten\u00e7\u00e3o a uma sensibilidade internacional progressista que se traduz n\u00e3o s\u00f3 nas bandeiras, mas tamb\u00e9m em poss\u00edveis formas para as novas batalhas hist\u00f3ricas, num generoso retrato dos cinemas do presente. Belo festival.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A 70\u00aa Berlinale iniciou em meio a intemp\u00e9ries de v\u00e1rios n\u00edveis, do temor sobre o coronav\u00edrus (o j\u00fari do pr\u00eamio Teddy, por exemplo, teve ausente um de seus jurados, chin\u00eas, ficando desfalcado) a mudan\u00e7as de infraestrutura causadas por revis\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias e reformas na regi\u00e3o da Potsdamer Platz, base do festival. 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