{"id":65,"date":"2020-02-28T07:30:54","date_gmt":"2020-02-28T10:30:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/?p=65"},"modified":"2020-02-28T07:32:02","modified_gmt":"2020-02-28T10:32:02","slug":"filmar-dissidencias-entre-vida-e-filme","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/2020\/02\/28\/filmar-dissidencias-entre-vida-e-filme\/","title":{"rendered":"Filmar dissid\u00eancias: entre vida e filme"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/202004882_1_RWD_1380-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-66\" srcset=\"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/202004882_1_RWD_1380-1024x576.jpg 1024w, http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/202004882_1_RWD_1380-300x169.jpg 300w, http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/202004882_1_RWD_1380-768x432.jpg 768w, http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/202004882_1_RWD_1380-676x380.jpg 676w, http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/202004882_1_RWD_1380.jpg 1380w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Las mil y una (Clarisa Navas, 2020)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na abertura da Panorama, Michael St\u00fctz, novo diretor da se\u00e7\u00e3o, reclama pela rebeli\u00e3o. A Panorama \u00e9 a do discurso direto, a que mais acredita na representa\u00e7\u00e3o, e na representatividade, na chave da comunica\u00e7\u00e3o ampla como maior voca\u00e7\u00e3o do cinema. H\u00e1 uma lista de problemas a ser tocada e de alguma maneira reparada pela imagina\u00e7\u00e3o do cinema (isso parece ser uma cren\u00e7a). Em especial, lutas geopol\u00edticas e micropol\u00edticas: trata-se, em geral, da uni\u00e3o de bichas e bruxas (ou seja, todas as vidas que escapam ao status quo), em hist\u00f3rias de desobedi\u00eancia contadas com a transpar\u00eancia da tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica em suas vers\u00f5es contempor\u00e2neas.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme da abertura, <em>Las mil y una<\/em>, assim se anunciou: filme de diretora argentina \u2013 Clarisa Navas \u2013 balanceando a hegemonia G na ind\u00fastria da cultura LGBT, bem como indicando o projeto deste festival em destacar outro ponto de vista que n\u00e3o o do hemisf\u00e9rio norte. Se h\u00e1 algo de maior interesse no filme de Clarisa \u2013 e no que significa a escolha deste filme para abrir a mostra \u2013 \u00e9 certa reconex\u00e3o temporal entre lacra\u00e7\u00e3o e realismo, digo: se nos \u00faltimos tempos vimos muitos cinemas dissidentes apostando no artif\u00edcio, no bafo, no extempor\u00e2neo da performance como alternativa de vida (ou de morte de um mundo para surgimento de outro, como se tem dito no lugar comum das nossas melhores esquerdas), aqui h\u00e1 uma esp\u00e9cie de retorno ao pacto naturalista. Com isso, n\u00e3o significa que se tenha abandonado a reivindica\u00e7\u00e3o pelo queer como alternativa \u00e0 pol\u00edtica LGBT (que teria mais a ver com acesso a institui\u00e7\u00f5es que com a performatividade de vis\u00f5es outras). Nem que, neste sentido, deixamos a fantasia criadora do palco para retornar \u00e0 melancolia mitigadora do quarto. Me parece \u00e9 que talvez a inven\u00e7\u00e3o do corpo queer contempor\u00e2neo demonstra assimila\u00e7\u00e3o pelo olhar comum, j\u00e1 podendo ter <em>educado <\/em>os corpos do presente como o entendemos, e assim retornar \u00e0 superf\u00edcie onde se d\u00e1 a tessitura do tempo cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Do encontro entre fetiche do plano-sequ\u00eancia, retrato das vidas e busca por corpos extraordin\u00e1rios, talvez a assun\u00e7\u00e3o de que a educa\u00e7\u00e3o queer despeja o artif\u00edcio na sabedoria do tempo; e a dissid\u00eancia, motor deleuziano, \u00e9 reconfigurada em c\u00f3digo baziniano. Erika Lust encontrou Lucrecia Martel. Observe com calma e ver\u00e1s cada detalhe dos gestos os quais nosso olhar, tendo olhado o bastante, j\u00e1 p\u00f4de assimilar, analisar, reexibir para um filme. N\u00e3o estou falando simplesmente de filmar o cotidiano, mas talvez o contr\u00e1rio, um projeto de cotidianizar o filme: h\u00e1 uma dif\u00edcil busca racional pelo propriamente pulsional no modo como o filme de Clarisa entende ser capaz de sequestrar gestos de pessoas (no que ser\u00e1 um filme portanto em muito coreogr\u00e1fico). <em>Las mil y una <\/em>termina por localizar e indicar uma disputa que parece central \u00e0 Panorama e \u00e0 Berlinale: entre aquilo que preserva o rasgo das liberdades e aquilo que representa, e portanto domestica, vidas dissidentes (para fazer filme).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na abertura da Panorama, Michael St\u00fctz, novo diretor da se\u00e7\u00e3o, reclama pela rebeli\u00e3o. A Panorama \u00e9 a do discurso direto, a que mais acredita na representa\u00e7\u00e3o, e na representatividade, na chave da comunica\u00e7\u00e3o ampla como maior voca\u00e7\u00e3o do cinema. 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