{"id":217,"date":"2024-03-01T09:36:00","date_gmt":"2024-03-01T12:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/?p=217"},"modified":"2024-03-02T11:13:33","modified_gmt":"2024-03-02T14:13:33","slug":"resumo-final-berlinale-2024-com-destaque-de-filmes-outro-olhar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/2024\/03\/01\/resumo-final-berlinale-2024-com-destaque-de-filmes-outro-olhar\/","title":{"rendered":"Resumo final da Berlinale 2024 com destaque de filmes \u2013 outro olhar"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por Tha\u00eds Vidal<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Berlinale acabou no \u00faltimo domingo e destaco pr\u00eamios para o Brasil: melhor dire\u00e7\u00e3o na sess\u00e3o Encounters para Juliana Rojas por <em>Cidade; Campo<\/em>, pr\u00eamio da cr\u00edtica, Fipresci para <em>Dormir de Olhos abertos<\/em>, de Nele Wohlatz, coprodu\u00e7\u00e3o brasileira filmada no Recife; al\u00e9m de pr\u00eamios interessantes no cen\u00e1rio pol\u00edtico global como o Urso de Ouro da diretora franco-senegalesa Mati Diop por <em>Dahomey<\/em> e o pr\u00eamio de melhor document\u00e1rio para o filme palestino <em>No other land<\/em>, de Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor, coletivo de ativistas palestino-israelense. Nesse contexto, a premia\u00e7\u00e3o foi tamb\u00e9m marcada por diversos posicionamentos pol\u00edticos significativos, com falas de diretores premiados em defesa dos palestinos e contra o genoc\u00eddio que se opera na regi\u00e3o, algo bastante discutido e acirrado em todo o contexto do Festival no ano de 2024.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer de Dormir de olhos abertos \u2014 Sleep with Your Eyes (HD)\" width=\"676\" height=\"380\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QbIzeZ9Plhk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Entrando neste terreno das representatividades, a programa\u00e7\u00e3o trouxe alguns filmes interessantes para se destacar, pensando em outras vis\u00f5es, outras culturas e outras hist\u00f3rias. Destaco alguns aqui que me chegaram como experi\u00eancias de cinema mas tamb\u00e9m como experi\u00eancias de reflex\u00e3o pol\u00edtica social, que vejo como algo fundamental no cinema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O longa <em>Keyke mahboobe man (My favourite cake)<\/em>, filme iraniano que esteve na competitiva, se destaca por trazer uma hist\u00f3ria singela e simples, de amor, mas que carrega muito sobre o pa\u00eds, sua pol\u00edtica, suas limita\u00e7\u00f5es e a realidade que o seu povo vive. Essa reflex\u00e3o vai da pr\u00f3pria tem\u00e1tica do filme: uma mulher vi\u00fava que vive sozinha conhece um taxista e decide secretamente convid\u00e1-lo para ir \u00e0 sua casa, mas vai sobretudo dos detalhes e da narrativa que se desdobra desastrosa. A partir de uma primeiro feito contra a lei, quando ela convida um homem para ir em sua casa, se inicia uma sequ\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es de contraven\u00e7\u00e3o baseadas na alegria que vivem por uma noite esses dois personagens. No simples, no delicado, no interno, os diretores Maryam Moghaddam &amp; Behtash Sanaeeha refletem sobre o controle social e moral do estado, evidenciado sobretudo pelo fato de que ambos n\u00e3o foram permitidos sair do pa\u00eds para apresentar seu filme na Berlinale, que deixou, na premi\u00e8re, duas cadeiras reservadas com seus nomes, por\u00e9m vazias.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"My Favourite Cake new clip official from Berlin Film Festival 2024 2\/2\" width=\"676\" height=\"380\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SiUSlj_GvEM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Ainda nesse sentido, explorando a constru\u00e7\u00e3o do singelo, do sens\u00edvel e do pessoal como lugar e forma para uma gigante pot\u00eancia de reflex\u00e3o pol\u00edtica, o filme senegal\u00eas <em>Demba<\/em>, que esteve na Encounters, dirigido por Mamadou Dia, conta a hist\u00f3ria de um servidor p\u00fablico de uma pequena cidade que se v\u00ea enlouquecido e adoecido pelo desaparecimento\/morte de sua mulher. \u00c9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria de amor, dele pela mulher e entre pai e filho. Demba, o protagonista, \u00e9 aposentado pelo estado e precisa lidar com todos os vazios poss\u00edveis, mas mesmo com a ajuda de seu filho que o apoia com dedica\u00e7\u00e3o, ele vai caminhando para sua morte. Atrav\u00e9s de um cen\u00e1rio, uma forma, uma estrutura e uma imagem decolonial conhecemos um pouco da cultura, da religiosidade e da realidade do Senegal, enquanto vamos com Demba vivendo esse conflito interno e emocional constru\u00eddo de forma bastante cuidadosa. O trabalho de montagem \u00e9 algo destac\u00e1vel nesse filme, as idas e vindas que interrompem o tempo, que constroem o tempo do interno. Tamb\u00e9m se destaca o trabalho sonoro, que nos permite sair e entrar em diferentes pontos de vista narrativos tamb\u00e9m a partir dessa ferramenta. No filme, vamos com o Demba e vemos o Demba em diferentes momentos, acompanhamos seu sofrimento, mas tamb\u00e9m sentimos com ele. \u00c9 um filme bonito e humano, uma experi\u00eancia outra de cinema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Continuando no cinema africano contempor\u00e2neo, destaco outro filme, este do Congo, que traz, a partir de uma forma mais tradicional de document\u00e1rio, explorando uma linguagem participativa, assistimos de dentro a realidade de uma cidade que n\u00e3o possui energia el\u00e9trica, est\u00e1 alagada e sofre em condi\u00e7\u00f5es de pobreza. O olhar que nos apresenta \u00e9 o do congol\u00eas Nelson Makengo, com seu primeiro longa, que estrou na mostra Panorama. O filme vai caminhando entre personagens e hist\u00f3rias, a comunidade enquanto grupo protagoniza, por vezes pode ser confuso, mas apresenta a realidade de seu pa\u00eds, com nuances que v\u00e3o desde o poder europeu por dar ou n\u00e3o energia el\u00e9trica \u00e0quele lugar, quanto por trazer \u00e0 tona a for\u00e7a religiosa crist\u00e3, algo que me fez pensar muito no Brasil. Por\u00e9m com o vi\u00e9s do poder da figura de Jesus e do catolicismo bastante sincr\u00e9tico, que \u00e9 constante no filme, como sa\u00edda e caminho para sobreviv\u00eancia na extrema pobreza que o filme recorta, apresenta e nos insere. O filme nos faz pensar sobre a colonialdiade de forma direta, a partir de um devir e de toda uma complexidade, onde a for\u00e7a da cristianiza\u00e7\u00e3o na figura de Jesus (que na realidade n\u00e3o condiz com sua imagem europeia difundida pelo cristianismo) se mescla com toda a cultura africana que \u00e9 forte e resistente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos os filmes nos provocam filosoficamente a pensar sobre poder, sobre os espa\u00e7os globais de poder, sobre a colonialidade e sobre as for\u00e7as que operam em n\u00f3s em algum sentido de entendimento de mundo, em diversas sociedades.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tha\u00eds Vidal A Berlinale acabou no \u00faltimo domingo e destaco pr\u00eamios para o Brasil: melhor dire\u00e7\u00e3o na sess\u00e3o Encounters para Juliana Rojas por Cidade; Campo, pr\u00eamio da cr\u00edtica, Fipresci para Dormir de Olhos abertos, de Nele Wohlatz, coprodu\u00e7\u00e3o brasileira filmada no Recife; al\u00e9m de pr\u00eamios interessantes no cen\u00e1rio pol\u00edtico global como o Urso de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":218,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[106],"tags":[6,107,24,12,21],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/217"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=217"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/217\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":227,"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/217\/revisions\/227"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/media\/218"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.ccba.org.br\/conexaoberlinale\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}