O tempo dirige a Berlinale.

KLEBER MENDONÇA FILHO
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A Berlinale completou este ano seu 60º aniversário exibindo interessantíssimo material de arquivo, deixando claro que o festival foi instrumento importante nas décadas da Guerra Fria. Talvez seja esse histórico que ainda dê ao Festival Internacional de Cinema de Berlim um certo sabor de democracia e uma tentativa de programar filmes de teor social e político, com a habitual demonstração de respeito por autores do mundo.
Essas quase duas semanas de cinema, espalhadas em dezenas de salas grandes de Berlim, de certa forma refletem a sensação geral que esta cidade inspira. Se o mundo é repleto de cidades ricas em cultura e arte, poucas têm a capacidade de inspirar o pensamento livre para as artes como Berlim, que durante tanto tempo viu-se dividida, e que agora parece agregar tudo.
É um festival de cinema encravado no meio de sítios históricos que nos lembram não apenas o que aconteceu aqui, mas que parece ainda guiar, através do passado, os caminhos para o futuro.
Com as principais salas localizadas entre o monumento em memória ao Holocausto e a antiga sede da Gestapo, a área é ainda cortada pelo fantasma desenhado no chão (em singelos paralelepípedos) do que uma vez foi o Muro, a Berlinale oferece certamente um grande diálogo entre as imagens do cinema e as imagens deixadas pelo passado.
Uma das imagens mais fortes da Berlinale este ano foi a do clássico Metropolis, de Fritz Lang, sendo projetado numa tela montada no Portão de Brandemburgo, outro marco da cidade. O filme foi restaurado a partir de uma cópia que se acreditava perdida e foi achada na Cinemateca de Buenos Aires em 2008.
Nas suas sete mostras distintas, críticos, gente de mercado e público tentam dar algum sentido ao excesso de filmes de todos os lugares e estilos. Curiosamente, vale observar que a produção alemã continua tímida como resultados na tela, embora a participação da Alemanha como espaço para produção esteja aumentando. O maior sucesso desse estímulo recente foi a fatia alemã em Bastardos inglórios, de Quentin Tarantino, indicado a oito Oscars.
Cofinanciado pelo fundo de incentivo ao cinema da cidade de Berlim (Berlin-Brandenburg GmbH), e filmado nos estúdios Babelsberg, nos arredores de Berlim, o sucesso mundial do filme foi transformado em marketing para Berlim, com camisas, suéteres, bonés e cartazes do filme vendidos no comércio da cidade.
Na quarta-feira passada, foi anunciado um acordo entre os estúdios Pinewood, em Londres, e os estúdios Hamburg e Adlershof numa joint-venture chamada Pinewood Studios Berlin Film Services. A revista Variety de quinta-feira descreveu os fundos alemães para coproduções estrangeiras como “generosos”, nas esferas regional e federal, resultando “na mais dinâmica região da Europa para a produção de cinema”.
E os filmes alemães? Embora a questão dos fundos de incentivo e coproduções garanta nacionalidade alemã a pelo menos três outros filmes em competição, são três os filmes que puderam ser considerados alemães na competição esse ano. E foi uma mostra bem fraca de uma filmografia que já nos deu Fassbinder, Wenders e Herzog.
Não deixa de ser curioso ver que a única vaia ouvida nas sessões da Berlinale foram para um drama histórico sobre o nazismo. Jud Suss – Film ohne gewissen (Judeu Suss – Ascensão e queda), de Oskar Roehler, narra, como num assistível especial para a TV, a história real e terrível de Ferdinand Marian, ator ariano que foi obrigado por Joseph Goebbels, à frente do cinema no 3º Reich, a aceitar o papel do mais abominável estereótipo do judeu, numa superprodução de propaganda nazista. Fica a dúvida: o público vaiou o filme ou o tema?
Se um segundo filme, Der rauber (O ladrão), de Benjamin Heisenberg, conquistou o respeito do público e da crítica, um terceiro foi um dos poucos vexames da seleção esse ano. Shahada, de Burhan Qurbani, crônica étnica sobre muçulmanos na Berlim contemporânea, lidando com um manual de problemas modernos, como aborto, homossexualismo e adultério. Esse subCrash berlinense é um projeto de jovem realizador, e ninguém sabe ao certo o que estava fazendo em espaço tão importante.
Vale dizer que, nas mostras paralelas, o cinema alemão pareceu relacionar-se bem com o seu passado. Além do evento que foi a apresentação de Metropolis, Berlim apresentou a cópia restaurada de um documento essencial para entender não apenas o elemento humano, mas a história dolorida da Alemanha: Nuremberg: its lesson for today, o documentário oficial do julgamento de 23 oficiais nazistas, exibido na Alemanha como parte do processo de desnazificação da Alemanha no pós-Guerra.
Por último, um relançamento pertinente, e não menos fascinante: a Fundação Fassbinder, dedicada a divulgar a obra de Rainer Werner Fassbinder, apresentou em duas sessões especiais a cópia nova de um dos seus filmes menos conhecidos, Welt am draht (1973), surpreendente por ser um filme de ficção científica sobre mundos virtuais criados por computador. É o presente.




























